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Ônibus-bomba e homens-bomba ao volante

por Milton Corrêa da Costa*

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Há algo de estranho e macabro no transporte de ônibus no Rio de Janeiro. Recentemente, num período de 12 horas, ocorreram 7 acidentes envolvendo ônibus na capital do Estado, resultando numa vítima fatal e 61 feridos, sem falar no grave acidente da Rio-Teresópolis (a primeira suspeita é de defeito no sistema de freios), na segunda-feira 22/10, onde 15 pessoas morreram e outras resultaram gravemente feridas. Um dos ônibus envolvidos na série de acidentes, que tombou na manhã da última sexta-feira, onde o motorista avançou o sinal vermelho, possuía 148 multas atreladas à sua placa, entre agosto de 2009 e o início deste mês, entre elas algumas por excesso de velocidade e avanço de sinal, infrações que colocam em risco a segurança de trânsito.

Estamos, portanto, a mercê de ônibus-bomba e homens-bomba ao volante de tal transporte coletivo, havendo inúmeras indagações a serem feitas. De que forma as empresas efetuam sistematicamente a manutenção de suas frotas? Tal serviço é plenamente eficaz e seguro? Quantos motoristas de ônibus, que transportam diariamente milhões de passageiros, têm ciência de que são portadores de hipertensão, são diabéticos ou cardíacos? As pesquisas indicam, por exemplo, que no Brasil mais de 15% de seus habitantes sofre de hipertensão, fonte do infarto e do acidente vascular encefálico. Neste percentual, obviamente, estão incluídos um bom número de motoristas de ônibus e de carros particulares, alguns também com problema de obesidade mórbida, sem falar nos estressados do volante, dirigindo muitas vezes sob forte tensão.

As indagações se sucedem. Quantos motoristas de ônibus, de cada empresa, estão excessivamente acima do peso? Quantos exercem, ao mesmo tempo, as funções de motorista e trocador, fato que implica em permanente desatenção ao trânsito? Quem monitora, in loco, o trabalho diário dos motoristas nas vias públicas? De que forma é avaliada a condição física e psicológica do profissional do volante ao assumir o serviço no pátio das empresas? Quantos têm problemas relacionados ao uso do álcool fora do serviço? Qual é o grau de estresse dos motoristas de ônibus? Como é feita a avaliação física e psicológica periódica dos profissionais periodicamente? De que servem cursos de reciclagem se não se fiscaliza efetivamente, na via pública, o comportamento do motorista de ônibus? Quem fiscaliza efetivamente, em território nacional, o uso do cinto de segurança, de passageiros de ônibus e do condutor, nos casos em que a lei de trânsito torna obrigatório o equipamento (vide Resolução / Contran 14/98 e Artigo 65 do CTB)?

Registre-se ainda que o trânsito hoje, mormente nos grandes centros urbanos, é fonte geradora de estresse, fato que acaba influindo no ato de conduzir seguramente um veículo. Se a temperatura ambiente for de intenso calor a situação de agrava, mormente quando sabemos, por exemplo, que a maioria dos veículos coletivos no Brasil não possui ar refrigerado, o que causa desconforto, incômodo e mal-estar principalmente aos seus motoristas, dirigindo horas e horas muitas vezes em condições sub-humanas, em veículos antigos, em péssimas condições de manutenção.

A realidade é que muitas tragédias podem e devem ser evitadas no trânsito brasileiro. Basta prevenir, monitorar e fiscalizar. Há psicopatas e doentes mentais (o psicopata não é considerado doente mental, mas sim portador de transtorno de personalidade), hipertensos em alto grau e cardíacos dirigindo ao nosso lado, além de pessoas portadoras de elevado grau de estresse e agressividade (homens-bomba), sem sabermos efetivamente quem e quantos são.

No caso do transporte de ônibus é preciso, pois, que as empresas intensifiquem os testes de avaliação médica e psicológica de seus profissionais. Caso contrário todos nós, usuários das vias públicas, estaremos em risco permanente. Tal ação preventiva deve ser prioridade das empresas de transporte coletivo e meta permanente da área de recursos humanos. A vida humana é o maior bem jurídico tutelado. Tais tragédias podem e devem ser evitadas. O mais urgente possível.

 

*Milton Corrêa da Costa
Tenente coronel da reserva da PM do Rio de Janeiro e estudioso em segurança de trânsito

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