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Como se não houvesse amanhã. Risco, liberdade e juventude

por Eduardo Biavatti*

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Quando dizemos para um jovem:”use o cinto de segurança”,”não dirija depois de beber” ou”use o capacete”, impondo-lhe o mandamento de cuidar de si porque assim está estabelecido legal e moralmente pela sociedade a que ele pertence, o que lhe oferecemos em troca?
Podemos responder facilmente que lhe damos a VIDA, e estamos conversados. Aliás, raramente isso é um conversa, não se trata de um diálogo: o que mais poderia querer um jovem além de viver muitos e muitos anos com plena saúde (mesmo que isso seja uma impossibilidade que o passar das décadas revela inexoravelmente)?
Se a educação para o trânsito fosse um exercício de diálogo, talvez ouvissemos do jovem que ele quer muito VIVER, que lhe importa muito pouco SOBREVIVER. Essa educação não é, porém, um diálogo, pouco se esforça em estabelecê-lo, e não surpreende que fale tão pouco aos corações e às mentes dos jovens – não importa quantas mil”tuitadas” e perfis em redes sociais sejam criados, forçando a barra do papo com a galera.
Os educadores se especializaram em transferir ao jovem a responsabilidade por essa incomunicabilidade.”O que entra por um ouvido, sai pelo outro”, capitula o professor-de-saco-cheio.”O problema é o esgotamento dos valores!”gritam os moralistas de plantão, também autodenominados éticos.”Ninguém quer nada com nada”, desistem de vez os mais céticos. Poucos se dão ao trabalho, entretanto, de escutar o sacrifício geral das liberdades que se pede pelo”bem da segurança”.
Estamos no meio de uma negociata nos últimos 20 ou 30 anos, da qual sairemos com alguma segurança e liberdade nenhuma, alerta Contardo Calligaris no ótimo artigo publicado na Folha de São Paulo, em 27 de janeiro. Parece um alerta exagerado, mas vamos lembrar rapidamente o que ocorreu ao longo do século passado com as crianças na Inglaterra.
A impressionante redução de mortes de crianças, especialmente por atropelamentos, desde a década de 20, foi obtida às custas de uma restrição cada vez maior de sua mobilidade independente. Pais, professores e autoridades reagiram crescentemente ao”mundo perigoso” do trânsito, como conta o geógrafo John Adams, aumentando a idade permitida para que seus filhos brincassem nas ruas, atravessassem-nas, andassem de bicicleta, e se conduzissem sozinhos para a escola e pela cidade.
A vitória exemplar da segurança das crianças inglesas foi o verso da supressão de sua liberdade na cidade e, em nossa realidade atual, de seu descolamento da vida urbana por meio do confinamento em condomínios de”alta segurança”. Experimente falar de”pedestres” em qualquer escola particular de classe média, em qualquer cidade grande ou média brasileira, para saber em que resultou esse descolamento.
Atrasamos a experiência de enfrentamento direto do trânsito urbano, mas em algum momento ele acontecerá – justamente na adolescência, quando a experiência do risco se torna indissociável da construção de identidade do jovem. Como fazer isso sem liberdade? De modo geral, os pais modernos querem os filhos por perto, de preferência sob máximo controle, tudo bem, e muitos adoram, como já disse Calligaris, que os filhos demonstrem não serem suficientemente maduros para sair pelo mundo e para correr os riscos que o desejo acarreta. Mas eles sairão, todos sabemos, e os pais passarão longas madrugadas se perguntando para onde foram, com quem estão e se voltarão e quando.
Teríamos feito melhor em prepará-los para viver os riscos do mundo, ao invés de aliená-los da reflexão sobre a violência do trânsito, e de muitas outras que marcam nossos encontros com os outros. O nobílissimo esforço de proteção da infância teria, quem sabe, encontrado uma continuidade coerente, ao invés de se esvair em um poste no fim de noite da balada.
Promover a reflexão sobre a violência é uma coisa bem diferente do que encher a boca de indignação pelas13:48 1/2/2011mortes” e pelos”acidentes evitáveis, como ouço sempre de autoridades públicas e policiais diversas, todas sem um pingo de sentido no que dizem. Quase perguntei em novembro passado para um Secretário Municipal, muito sofrido com as mortes de jovens:”você sente realmente o que você está dizendo? Ou são apenas frases feitas que lhe caem bem?” A diferença é que quando não se fala de violência com autenticidade, como quem quer ouvir o que o outro pensa, não há conexão, não há comunicação, não há diálogo – e autenticidade não é algo que se disfarça diante de 500 jovens.
Pois, então, o que a educação para o trânsito tem a oferecer em troca desse desejo de viver do jovem? Oferece viver 100 anos a 10, ao invés de 10 anos a 100? Ou nada tem a oferecer?

*Eduardo Biavati
Mestre em sociologia (UnB) e especialista em segurança no trânsito. É membro titular da Câmara Temática de Educação e Cidadania do Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN), para o biênio 2010-2011. De 1993 a 2004,  foi Coordenador Nacional do Programa de Prevenção de Acidentes de Trânsito da Rede SARAH de Hospitais de Reabilitação.

Originalmente publicado no Blog do Biavatti, no dia 31/01/2011.

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