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Um novo assassino no trânsito: o celular

por Gláucio Ary Dillon Soares*

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Em 2005, a taxa de mortalidade no trânsito aumentou pela primeira vez em mais de duas décadas nos Estados Unidos, resultado do descaso político das presidências republicanas com a segurança individual e do crescimento do uso desordenado dos celulares e semelhantes nas ruas e estradas do país. Políticas contam. Os carros ficaram mais seguros, a legislação sobre dirigir alcoolizado e o uso do cinto de segurança não mudaram.
Então, o que mudou? Como explicar que 43.200 pessoas tenham morrido em colisões e atropelamentos, mais do que os 42.636 do ano anterior? A taxa, calculada pela National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA) em 1.44 por 100 milhões de milhas subiu de 1.44 para 1.46. Pior: a tendência era ao decréscimo. O número absoluto e as taxas vinham baixando. Foi uma inversão total.
Uma das explicações é a redução na atenção dos motoristas, também constatada pela mesma NHTSA e pelo Virginia Tech`s Transportation Institute. Essa interessantíssima pesquisa concluiu que quatro em cinco dos “acidentes“ e quase acidentes eram devidos à falta de atenção do motorista por apenas três segundos ou menos! A percentagem é altíssima: quase 80%.
Em muitos casos, uma distração fatal. As causas mais comuns da distração são os celulares, tonteiras e sono. Buscar algo dentro do carro, ou olhar para algo fora do carro (não relacionado com a direção) também contribuem significativamente para a distração fatal. Fazer essa pesquisa não foi fácil. Montaram câmaras de vídeo e sensores em 100 carros, que foram acompanhados 24 horas por dia. Esses carros percorreram 2 milhões de milhas (aproximadamente 3 milhões e 200 mil quilômetros. Houve 82 acidentes e 761 “quase acidentes“.
Alguns estados americanos, como Connecticut, Nova York e New Jersey proíbem o uso de celulares; Washington D. C. proíbe qualquer aparelho que faça uso de uma ou das duas mãos.
Há consenso entre autoridades municipais, do condado e do estado no que concerne ao uso desses aparelhos. Os fabricantes de automóveis e as companhias de seguro estão participando de reuniões e de programas para detectar e reduzir a desatenção. Até empresas de comunicação por celulares querem coibir o uso por quem dirige veículos em movimento.
A estrada também é fator importante. As pessoas sentem-se mais seguras nas pistas menores. Contudo, nos Estados Unidos, as vias rurais respondem por 60% das mortes nas rodovias, mas apenas 20% da população vive no campo. No Brasil, a taxa de acidentes é menor nas capitais do que no interior de cada estado.
A marca do carro conta, talvez por conta de que quem escolhe um tipo de veículo (mais esportivo) seja mais jovem e disposto a arriscar. Os dados mostram que Sunfire, Dodge Neon, Kia Rio e Acura RSX são os carros com taxa mais alta naquele país. Também conta, e muito, o tipo de veiculo. Motociclistas e ciclistas têm taxa de mortalidade muito mais alta do que os que estão dentro de um carro.
No Brasil, muitos atribuem essas altas taxas à imprudência dos motociclistas, mas nos Estados Unidos há debate sobre se os ciclistas são os que mais contribuem para as fatalidades. Um dos problemas mais sérios nesse tipo de colisão é que, mesmo nos Estados Unidos, raramente um motorista é punido por colidir com um pedestre, um motociclista ou um ciclista. Para começar, 22% fogem. Estudo levado a cabo por uma organização comprometida, a Silicon Valley Bicycle Coalition, afirma que, no estado de Nova York, os motoristas têm a responsabilidade em mais de 70% dos casos, mas a maioria não é sequer multada.
A cultura cívica (que inclui a automobilística) é um dos parâmetros a considerar. Os cidadãos das cidades, regiões e países com menor tradição automobilística pagam com vidas as diferenças culturais e de comportamento de massa. Sofia, capital da Bulgária, tem taxa de mortes no trânsito por milhão de habitantes 72, muito maior do que a de Viena ou Praga: 13. Como Sofia tem menos veículos do que as duas outras capitais, a diferença entre suas taxas por bilhão de quilômetros é muito maior.
Tem jeito? Tem! No ano seguinte à nova Lei do Trânsito, de 1998, houve 4 mil mortes a menos no Brasil, e o paz no trânsito ainda está na memória (e na vida) dos brasilienses, a despeito do descaso criminoso de alguns governos posteriores.

*Gláucio Ary Dillon Soares
Pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj)

Originalmente publicado no Correio Braziliense em 10/02/2011.

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