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Série Motociclistas | ‘Sei que o meu trabalho é perigoso, não quero continuar muito mais tempo nessa profissão’

Entrevista com Andrea Sadocco Gianini, a motogirl de São Paulo

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Série Motociclistas | ‘Sei que o meu trabalho é perigoso, não quero continuar muito mais tempo nessa profissão’

A luta das russas por melhores condições de trabalho e de vida inspirou a Organização das Nações Unidas (ONU) a decretar o dia 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. No Brasil, a exemplo das manifestantes de 1917, os rostos da Revolução Russa, os cromossomos XX invadiram espaços que antes eram exclusivamente masculinos, como o uso da motocicleta.
Em fevereiro, o Ministério da Saúde (MS) divulgou dados preocupantes: as mulheres estão morrendo mais em cima das duas rodas. Embora o índice masculino ainda ocupe 90% desse quadro, o Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério revela que, entre 1996 e 2010 o número de mulheres mortas em acidentes com moto cresceu 16 vezes. A frota apresenta crescente nas estatísticas dos modos de transporte há anos. No último levantamento do MS, 10,2 mil dos 41 mil brasileiros que perderam a vida no trânsito em 2010 utilizavam motocicletas.
Apesar dos números, a opção pela profissão de motofretista tem crescido entre as mulheres. Nesta segunda reportagem da Série Motociclistas, a Perkons ouviu uma motogirl de São Paulo, o maior centro urbano da América Latina, onde a regulamentação da profissão aconteceu há mais de dez anos. Em São Paulo, 139 mulheres morreram em acidentes com moto em 2010.
O Sindicato dos Motoboys de São Paulo, um dos maiores da categoria, conta também com algumas mulheres filiadas. Segundo o presidente do SindiMotosSP, Gilberto Almeida dos Santos, “a motogirl ainda é uma parcela muito, muito pequena da força de mão de obra no motofrete. Porém, isso está mudando. Aos poucos, com dedicação e seriedade, competência e uma postura diferente, elas têm conquistado um espaço cada vez maior”. Uma delas é Andrea Sadocco Gianini. Confira a entrevista exclusiva para a Perkons, em homenagem ao Dia Mundial da Mulher

“Sei que o meu trabalho é perigoso, não quero continuar muito mais tempo nessa profissão”

Divulgação

Andrea: anda de moto há 20 anos e optou pela profissão de motogirl por conta da liberdade e da remuneração

Na última sexta-feira (3), Andrea acordou normalmente para trabalhar. Saiu de sua casa e foi até a empresa de motofrete em que trabalha para fazer seu primeiro trajeto da Barra Funda até o Jabaquara – bairros relativamente distantes da cidade de São Paulo. Durante o percurso, precisou passar pela Avenida Paulista, onde a ciclista Juliana Dias acabava de ser atropelada por um ônibus de linha.
“Eu fiquei chocada. Foi terrível assistir àquela cena. O problema é que as pessoas não se respeitam. Eu me cuido, sigo as leis. Mas de que adianta, se o motorista ao lado não faz a mesma coisa? O trânsito não é feito só de leis e sinalização. O trânsito é feito de pessoas”, diz.
Andrea tem 40 anos, 20 deles sobre a moto. A profissão de motogirl veio por necessidade, há mais ou menos cinco anos. “O meu salário é semelhante ao de uma auxiliar administrativo. Mas eu prefiro trabalhar como motogirl por causa da liberdade, além da possibilidade de ganho extra, com alguns trabalhos particulares”, conta.
Andrea não escapa à realidade da classe dos motofretistas, que cobrados pela rapidez e pela quantidade de entregas, sentem na pele a pressão de um serviço que necessita apresentar resultados imediatos. Para reverter o cenário, ela encara uma rotina dura. “Meio dia, eu levo meu filho de sete anos para a escolinha. Depois, volto para o trabalho. Após as 17h30, começa a outra rotina: pegar o meu filho, dar banho, fazer comida e ir para a faculdade. Escolhi uma área que gosto muito, a de Tecnologia da Informação. Sei que o meu trabalho é perigoso, não quero continuar muito mais tempo nessa profissão. Mas ainda não posso trocar o certo pelo duvidoso”, confessa.
Sobre a falta de segurança, Andrea conta que já sofreu quatro acidentes enquanto conduzia a moto. “Três desses acidentes aconteceram porque havia óleo na pista. O primeiro foi porque um caminhão de lixo havia derramado chorume na pista. A minha moto deslizou e eu caí. Graças a Deus, estava com uma roupa adequada e sofri apenas alguns arranhões. Depois desse primeiro ‘tombo’, comecei a ficar com medo. Mas no último acidente, quando um taxista me fechou e sequer parou para prestar socorro, eu estava cheia de trabalho para fazer. Levantei minha moto e voltei para a pista”, lembra.
Por fim, Andrea fala com serenidade do planejamento urbano pessoal que traçou para si. “Minha profissão é perigosa, cansativa. Preciso me preparar psicologicamente e estudar o melhor trajeto todos os dias antes de sair de casa. Por isso, procurei um trabalho que fosse próximo à minha casa. Também fiz isso com a escola do meu filho, que eu levo a pé todos os dias. O ideal seria que as pessoas fizessem isso, que facilita muito a vida. Não adianta trabalhar do outro lado da cidade. Perde-se tempo, dinheiro, além da saúde. O trânsito depende muito mais das pessoas do que das leis”, conclui.

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