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O trânsito, eu e o outro

por Luiz Antonio Pedro*

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Ao passarmos 2010 onde a violência no trânsito de Maringá, ceifando muitas vidas, foi o tema mais apresentado e discutido pela mídia, resta-nos fazermos uma análise introspectiva e vermos o que realmente está sendo a causa. Numa visão superficial não precisa nem dizer que estas causas estão diretamente relacionadas com a impunidade para os “criminosos do trânsito”; com a falta de sinalização; fiscalização pouco eficiente; excesso de veículos transitando pelas ruas e despreparo de nossos “neo”motoristas.
O dia em que o Direito Penal prescrever que a única diferença entre um cidadão ser morto com um tiro de revolver em uma esquina movimentada e um cidadão ser morto em cima da faixa de pedestre por um veiculo que trafega a 100 km/hora onde o correto seria 50 km/hora é apenas o tamanho e a potência da arma ,muitas coisas começarão a mudar.
Ou seja, tanto o revolver como o veículo são armas perigosas e podem acabar com uma vida. Sendo o crime o mesmo, também a pena deveria ser a mesma.
Mesmo com toda fiscalização existente e até a chamada “industria da multa” o que se vê é mais instrução e menos ação. Ou seja, os agentes de trânsito deviam multar muito mais do que tentam ensinar o motorista a fazer a coisa certa. Parece uma contradição, porém, neste caso, aprendemos muito mais pelo bolso do que pelo ensinamento.
A percepção que temos de que o problema está no outro e não em nós mesmos também é um agravante. É o outro que fura o sinal, faz manobras arriscadas, não consegue controlar o veículo, não respeita as sinalizações, não respeita o limite de velocidade. Resumindo: é o outro que não sabe dirigir. É a rodovia que não está duplicada, não está sinalizada ou má conservada. É o número de veículos em circulação que vem aumentando a cada dia. E assim por diante.
Está percepção acaba criando um excesso de valorização e de autoconfiança em mim mesmo e quando percebemos somos nós mesmos que estamos envolvidos em acidentes e infelizmente alguns com morte.
Não que, nesta relação, o outro não tenha sua parcela de culpa e participação neste cenário de violência, mas se ao dirigirmos nossos veículos formos guiados pela paciência, pela prudência e pela inteligência evitaremos grande parte dos acidentes e as estatísticas passarão a mostrar outros números.
Porém o principal ponto a ser analisado é a relação entre as pessoas. E o conceito do dever e da coletividade. Martin Luther King já dizia que “Ou aprendemos a viver como irmãos, ou vamos morrer juntos como idiotas”. Então podemos afirmar que falta-nos a alteridade (é a concepção que parte do pressuposto básico de que todo o homem social interage e interdepende de outros indivíduos).
Temos que aprender a nos colocar no lugar do outro e nesta relação interpessoal falta-nos valorizar, identificar e dialogar com o outro. Se colocar no lugar do outro. Dessa forma haverá a possibilidade de exercer a verdadeira cidadania e passarmos a viver de forma pacífica.
O homem não pode continuar sendo lobo do próprio homem. Kant defendia a idéia de que todos os seres humanos são capazes de distinguir o bem do mal e todos são chamados a cumprir o seu dever. É a chamada ética do dever de Kant: fazer a coisa certa porque é bom e faz bem.
Resta-nos então separar o joio do trigo: identificar até que ponto o outro é o grande responsável pelos problemas que nos cercam e identificar até que ponto o problema está diretamente relacionado com a percepção que eu tenho deste outro. Somos seres humanos, e como tal, Kant afirma que não podemos nos ver como um fim em nós mesmos. Somos mais do que isso, somos membros de um todo, uma associação de seres racionais sob leis comuns a todos.
É só uma questão de respeito. A minha vontade, o meu querer somente é racional quando está voltado para o todo. É a eterna relação entre o individual e o coletivo. Somente quando passarmos a ver as relações sociais dessa forma é que podemos dar o primeiro grande passo para diminuirmos drasticamente a violência no trânsito.

*Luiz Antonio Pedro
Professor universitário e consultor de empresas em Maringá

Originalmente publicado no site O Diário.com em 05/01/2011.

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