NOTÍCIAS

A Matança no Trânsito

por Cristina Baddini Lucas*

Publicado em

As tragédias nas ruas e estradas estão destruindo sonhos e arrebentando com as famílias brasileiras. Quem não tem um caso de morte no trânsito entre a sua família ou amigos? Os hospitais estão superlotados de vítimas de colisões, capotamentos e atropelamentos. Em 2010, os acidentes de trânsito ocorridos no país deixaram 40.610 mortos, número 8% maior que o registrado em 2009 (37,6 mil), segundo dados do Ministério da Saúde. Pelas estatísticas 111 pessoas morreram por dia em acidentes em 2010. Em dois dias, o número de mortes supera o número de vítimas da queda do Airbus da TAM em 2007, A maior tragédia da aviação brasileira. Trata-se do maior número registrado nos últimos 15 anos.

Epidemia de lesões e mortes
Essa absurda matança no trânsito brasileiro precisa sim ser reprimida. As ocorrências de trânsito refletem um conjunto de fatores estruturais da realidade social, a começar pela prioridade concedida aos automóveis nas vias públicas. Se nada for feito, a previsão é que até 2015 o acidente de trânsito seja a principal causa de morte nos países em desenvolvimento. Para tanto É necessária a implementação de políticas públicas sérias.

Responsabilidades
O balanço do Ministério da Saúde atribui a alta do número de vítimas ao aumento das motos no trânsito. Dos 40 mil mortos em 2010, 25% ou seja, 10 mil são oriundos de acidentes envolvendo motos. A aprovação da lei do mototaxista foi outro agravante. Outra causa provável do aumento da mortalidade é o relaxamento da Lei Seca.
A Década de Ações para a Segurança no Trânsito de 2011 a 2020, instituída pela ONU (Organização das Nações Unidas) e que envolve 150 países num esforço conjunto para a redução dos acidentes de trânsito no mundo ainda caminha a passos lentos no Brasil. O governo federal acompanha meia dúzia de cidades na questão da segurança, mas esquece os outros 5.000 municípios brasileiros. Nem uma carta os prefeitos receberam do Governo Federal colocando o assunto em pauta e solicitando medidas nas cidades. Segundo estimativas, se somente as capitais reduzirem 50% da mortalidade no trânsito, teremos 30% de redução no total.

Mais punição
Há uma comissão de reforma do Código Penal no Senado prevendo aumento do rigor na punição aos motoristas que dirigem após beber e provocam acidentes com vítimas. Se a reforma for adiante, a embriaguez pode ser considerada qualificadora nos casos de morte. A pena de prisão poderá chegar a oito anos para o causador pelo acidente.
O Ministério da Saúde está propondo a criação de um novo fundo nacional com a receita das multas. Os recursos serão repartidos segundo o cumprimento de metas de redução de acidentes na forma de contrapartida.

Indiferença dos governantes
O governo federal merece ser criticado por conceder incentivos à produção e venda de motos e pelo contingenciamento da arrecadação com multas de trânsito, dinheiro este que deveria ser investido na prevenção de acidentes.
Enfim, espero que a ONU e a OMS (Organização Mundial da Saúde) na condição de patrocinadoras das ações incentivem de imediato, no âmbito nacional e de maneira ampla a integração dos órgãos de trânsito com os demais órgãos como saúde, educação e transporte. Espero também que finalmente se implante um órgão federal que tenha condições de dar um norte para a segurança de trânsito. Até hoje o governo federal vem ignorando o DENATRAN. Os governos estaduais entendem os DETRANs como fontes de receita. Os governantes municipais enxergam o trânsito como fonte de despesa e perda de votos. Os fabricantes culpam os condutores e a sociedade civil entende a área de trânsito como “indústria de multas”. O resultado é a chacina que todos participamos. Enquanto continuarmos com este pacto de impunidade, que envolve a todos, a chacina continuará. Afinal, qual o valor de uma vida humana?

*Cristina Baddini Lucas
Assessora do MDT, colunista do Diario do Grande ABC (Coluna De Olho no Trânsito)

COMPARTILHAR
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email
Compartilhar no print
VEJA TAMBÉM

CTB completa 24 anos com crescimento e envelhecimento da frota nacional

No verão cresce o número de acidentes envolvendo ciclistas

Fugir do local do acidente é crime, mesmo quando não há vítimas

Brasil se mobiliza com ações em homenagem às vítimas de trânsito

Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em nosso site e personalizar conteúdo. Ao utilizar este site, você concorda com o uso de cookies. Saiba mais em nossa Política de Privacidade.