NOTÍCIAS

A difícil relação entre pedestres e motoristas

Dissertação de mestrado aborda comportamento e percepção de risco dos pedestres

Publicado em
A difícil relação entre pedestres e motoristas

Uma visão simples do trânsito pode dividi-lo em dois protagonistas: o motorista e o pedestre. Nesse sentido, direitos e deveres se transformam numa proteção mais frágil do que a própria condição do pedestre frente à violência do trânsito.

A psicóloga Renata Torquato, que trabalha há cinco anos na linha de pesquisa “Comportamento, Trânsito e Transporte Sustentável”, afirma que o material científico sobre trânsito no Brasil é escasso, o que compromete qualquer planejamento de urbanismo: “A maioria das pesquisas que existem sobre o comportamento do pedestre é oriunda do exterior e, portanto, seus resultados não são passíveis de aplicação no nosso contexto sem revisão e adaptação”, contextualiza.
Renata, que acaba de concluir seu mestrado com uma dissertação sobre o comportamento do pedestre, dá detalhes da pesquisa na entrevista concedida a Perkons e aponta que um foco multiprofissional deveria ser utilizado para o desenvolvimento de um plano de ação voltado ao pedestre.

Perkons – Onde e há quanto tempo você atua na área de trânsito?
Renata Torquato – Desde a graduação em Psicologia, quando escrevi minha monografia sobre comportamento do pedestre. Depois da graduação, trabalhei meio ano em um instituto de pesquisa de trânsito na Noruega com metodologias e temas de trânsito distintos. Voltei para o Brasil para fazer o mestrado e prossegui com pesquisa sobre o tema pedestre. Atualmente participo na linha de pesquisa “Comportamento, Trânsito e Transporte Sustentável”. Faz cinco anos que realizo pesquisas sobre trânsito.

Perkons – Na sua opinião, o pedestre, como parte mais frágil do trânsito, tem direitos e proteção atendidos nas leis, fiscalização e organização do trânsito?
RT – Em termos de legislação, podemos dizer que no papel sim, mas na prática a realidade é diferente. Por exemplo, segundo o Código de Trânsito Brasileiro, a faixa de segurança é do pedestre e é dele a prioridade, mas não são em todas as cidades que os motoristas respeitam essa preferência. Também segundo o Código, o pedestre tem direito de concluir a travessia quando o semáforo para os carros estiver mudando para o verde, mas, ou ele corre, ou entra em conflito com os carros que buzinam para apressar seu passo. E isso porque não há fiscalização e punição efetiva para os motoristas que não respeitam os direitos dos pedestres.

Perkons – É como se o veículo fosse mais importante?
RT – Em termos de organização do trânsito, as cidades ainda são planejadas para os veículos motorizados, desconsiderando a mobilidade de outros tipos de deslocamentos. O planejamento urbano deveria também ser associado à análise das necessidades dos pedestres para aumentar a segurança e qualidade dos seus deslocamentos.
Outro ponto importante é a educação de trânsito sobre como deve ser o comportamento seguro do pedestre. Apesar de sua obrigatoriedade ser contemplada no Código de Trânsito, ela não tem sido realizada. Ela é importante para que os pedestres aprendam formas seguras de se locomover, a conhecer os riscos e a encorajá-los a adotarem comportamentos seguros. Mas o que se evidencia é que muitos aprendem sobre como se comportar enquanto pedestres depois de ter a permissão para serem motoristas.

Perkons – O pedestre tem sido negligenciado pelo gestor público no que tange a sua segurança e mobilidade?
RT – Sim. Para que o trânsito se torne seguro para o pedestre, é necessário uma lei de trânsito que seja respeitada pelos motoristas, uma educação de qualidade que ensine como se comportar de maneira segura no trânsito e um planejamento urbano que considere a sua mobilidade.

Perkons – Por que o pedestre adota o chamado comportamento de risco?
RT – No Brasil não existem estatísticas oficiais que tratem dos fatores antecedentes ao atropelamento. Dessa maneira, não sabemos exatamente o por quê eles acontecem. Várias são as possibilidades. Na minha pesquisa de mestrado, encontrei uma associação entre percepção de risco e comportamento de risco, ou seja, aquelas pessoas que avaliavam o comportamento como menos seguro, o realizavam com menos frequência. Então podemos inferir que a percepção de risco é um fator que pode influenciar a adoção de comportamentos de risco. Algumas pesquisas sugerem fatores como uso de álcool e atitudes. Entretanto, são necessárias mais pesquisas que apontem a influência de outros fatores.

Perkons – Há dados, estatísticas ou mesmo estudos sobre o tamanho da população pedestre? Esta foi uma dificuldade para se realizar o trabalho?
RT – A falta de estatísticas sobre fatores envolvidos em atropelamentos impossibilita uma discussão mais detalhada sobre os fatores e comportamentos de risco mais comuns no Brasil. Dados sobre atropelamentos, ambiente e comportamento no trânsito são essenciais para pensar em melhorias específicas que precisam ser feitas em prol da segurança dos pedestres de modo a tornar o trânsito um lugar mais seguro para todos os seus usuários.


*Renata Jucksch Torquato é graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná (2008). Trabalhou no Transport Ökonomisk Institutt (Instituto de Transporte e Economia), Oslo – Noruega, como assistente de pesquisa. É mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná (2011) na linha de pesquisa “Psicologia do Trânsito: Avaliação e Prevenção”. Tem experiência na área de Segurança de Trânsito e realizou trabalhos sobre comportamento de pedestres, educação no trânsito, análise de campanhas de educação no trânsito, uso do cinto de segurança, direção e álcool, Psicologia do Trânsito, entre outros.

COMPARTILHAR
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email
Compartilhar no print
VEJA TAMBÉM

CTB completa 24 anos com crescimento e envelhecimento da frota nacional

No verão cresce o número de acidentes envolvendo ciclistas

Fugir do local do acidente é crime, mesmo quando não há vítimas

Brasil se mobiliza com ações em homenagem às vítimas de trânsito

Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em nosso site e personalizar conteúdo. Ao utilizar este site, você concorda com o uso de cookies. Saiba mais em nossa Política de Privacidade.