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Uma equação que tem múltiplas variáveis

Recife implanta novo sistema de monitoramento para aumentar a segurança e a fluidez nas vias da cidade. Porém, para desatar o nó do trânsito, além do governo, soluções podem partir da iniciativa privada

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Grandes metrópoles tendem a sofrer com grandes problemas de trânsito. A capital pernambucana não foge à regra. De acordo com o Detran-PE, a Região Metropolitana do Recife já ultrapassou a marca de um milhão de veículos e a tendência é que esse número aumente ainda mais nos próximos anos.
Para o consultor na área de transportes urbanos e professor aposentado da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), César Cavalcanti, “a avalanche de automóveis que se agrega à frota diariamente é muito grande. A cada ano, o crescimento é maior, cerca de 7% a mais de carros e, em média, 14% a mais de motocicletas nas ruas”, avalia. 
Como forma de tentar melhorar a circulação na cidade, tanto de veículos quanto de pedestres, foram instalados novos equipamentos que auxiliam o trabalho dos agentes de fiscalização. Entre eles, câmeras de monitoramento que ajudam no atendimento a ocorrências que impedem a continuidade do tráfego e diminuem a capacidade da via. “Em situações pontuais o equipamento ajuda, como em acidentes, por exemplo, em que motos são deslocadas até o local agilizando o socorro. As câmeras registram o ocorrido, mas, sozinhas, não resolvem o problema do trânsito”, aponta.

Multidisciplinar
A equação que garante o equilíbrio e a eficiência entre mobilidade e segurança no trânsito tem a tecnologia apenas como uma das variáveis. Segundo Maria Amélia Franco, especialista em trânsito da Perkons, que desenvolve soluções tecnológicas para gestão de tráfego, o trânsito tem de ser pensado de forma multidisciplinar, com medidas para educação, regulamentação do sistema, transporte sustentável, entre outras.
Para ela, os sistemas inteligentes de tráfego são um segmento da engenharia que compõe um desses pilares, em geral com resultados de médio e curto prazo. “O uso de câmeras e tecnologias de fiscalização não é novidade, mas a solução tem sido ampliada como uma ferramenta de apoio ao planejamento e gestão do trânsito e da segurança pública”, explica Maria Amélia. E acrescenta: “Engana-se tanto quem pensa que apenas a tecnologia vai resolver o problema do trânsito quanto quem acredita que é possível solucioná-lo sem ela. A tecnologia está aí para contribuir com a inteligência na melhoria da mobilidade urbana”.
Recife conta atualmente com 66 câmeras de monitoramento instaladas pela Companhia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU). A tecnologia beneficia a população, que toma conhecimento por meio de telejornais locais que utilizam das imagens emitidas da Central de Operações de Trânsito (COT) e também de ferramentas de mídia social, como o twitter, que informam trajetos com trânsito mais livre. “O uso dessas câmeras ajuda a fugir do congestionamento, mas não acaba com ele”, afirma Cavalcanti.
Desde março, a CTTU iniciou a implantação de um sistema de reconhecimento de placas de veículo (OCR) nos dispositivos de fiscalização eletrônica fixos, que supervisionam 60 faixas de tráfego, e a operação de um veículo de fiscalização itinerante conhecido como ViaPK. Isso permite a geração de dados de origem-destino dos veículos, além de inibir o trânsito daqueles que estão irregulares. Com estas informações, o órgão visa a planejar melhor as intervenções no tráfego e diminuir o impacto dos congestionamentos.

Soluções viáveis
Para o consultor, que também é coordenador Regional do Nordeste da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), a solução para o problema do trânsito no Recife é colocar o transporte público em primeiro lugar. “Enquanto não priorizarmos a circulação da frota de veículos coletivos, teremos essa situação. A insistência da classe média em utilizar o carro pra tudo, até mesmo pra ir à padaria na esquina, é um dos fatores que agravam essa condição”, analisa. É preciso, segundo Cavalcanti, atribuir faixas exclusivas para veículos coletivos, modernizar a frota, subsidiar o preço da passagem, além de garantir mais conforto e segurança aos passageiros. “Só assim conseguiremos atrair usuários para esse tipo de transporte”, assegura.
Problema comum de grandes e médias cidades, os horários de pico costumam ser o “calcanhar de Aquiles” da gestão inteligente do trânsito. Em cidades como São Paulo, por exemplo, estudos apontam que horários críticos já ocupam, também, o período da manhã. “É claro que existem fatores inerentes às condições de grandes cidades, como os horários de pico. Em muitos momentos, vemos ociosidade nas vias e, em outros períodos, grandes congestionamentos. Desatrelar esses horários seria muito bom, mas é algo difícil de ser conquistado”, pondera Cavalcanti.
A especialista Maria Amélia segue o mesmo raciocínio. Para ela, a atitude de empresários e cidadãos também conta. “Oferecer condições de teletrabalho, horários flexíveis de entrada e saída do emprego e programas de caronas solidárias são alguns exemplos para os trabalhadores evitarem o trânsito nos horários de pico. Além disso, a administração pública pode avaliar a adoção de tarifas de transportes diferenciadas e mais baratas no período de menor demanda, estimulando o uso do transporte público em detrimento do carro ou da moto”, conclui.

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