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Série Motociclistas | O corpo humano não é para-choque

Capacete, jaqueta, luvas e até lâmpadas em bom estado fazem parte do check list do motociclista que não quer colocar sua vida em risco.

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Série Motociclistas | O corpo humano não é para-choque

Recentemente, o Sistema Único de Saúde (SUS) informou que seu custo de internações por acidentes com motociclistas foi 113% maior do que em 2008, passando de R$ 45 milhões para R$ 96 milhões. O crescimento dos gastos acompanha o aumento das internações que passou de 39.480 para 77.113 hospitalizados no período.

Nesta quarta reportagem da Série Motociclistas, a Perkons traz opiniões sobre a importância do uso de acessórios para os motociclistas e seu papel na redução de sequelas quando envolvidos em acidentes. Segundo Maria Amélia Franco, especialista em trânsito da Perkons, ainda que o ideal seja solucionar os problemas que causam ou potencializam a ocorrência de acidentes com motos, diminuir a gravidade do impacto à vítima é igualmente relevante.  “A frota de motocicletas no país aumenta a cada dia, estimulada pela migração de usuários do carente e ineficiente transporte público para o transporte motorizado sobre duas rodas. O despreparo, a falta de fiscalização e de infraestrutura para a segurança viária já evidenciam a dificuldade para combater a causa; e  o país tampouco está preparado para oferecer acessibilidade àqueles que sobrevivem ao trauma com sequelas”, analisa.


Motociclista fica em condição frágil perante outros meios de transporte que circulam em conjunto com ele no trânsito. (Divulgação)

Helio Liberato, psicólogo especialista em trânsito e consultor da Fenasdetran (Federação Nacional das Associações de DETRAN), tem opinião polêmica sobre o tema: “O capacete não adianta porque não tem uma tecnologia que aguente uma pancada mais forte. Somente para acidentes leves. Muitos desses equipamentos, quando em colisões graves, lascam e entram na cabeça da pessoa. Em minha opinião, moto não é transporte para seres humanos”.

O especialista analisa o comportamento dos condutores: “Há dois tipos de condutores. Os motociclistas e os motoqueiros. Esses últimos andam pelas ruas em zigue-zague, não respeitam a lei, nem a velocidade máxima”, e responsabiliza a falta de ações para esse transporte, “a frota cresce a cada dia e nada é feito para melhorar. A criação de corredores exclusivos ajudaria no fluxo e segurança. Outra questão é permitir que as motos transitem do lado esquerdo da via e não como orienta o Art. 57 do Código de Trânsito Brasileiro, que diz que os ciclos devem circular na direita, a mesma pista dos carros pesados, onde o piso é ondulado, esburacado, como é o caso de Salvador. A questão é simples: os retrovisores são de um lado côncavo e de outro convexo, assim, o condutor não tem uma visão exata da distância. E, num acidente, o motociclista leva a pior porque o corpo do ser humano não é para-choque”, diz.

Já Orlando Cesar Leone, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes e Atacadistas de Motopeças (Anfamoto) e empresário do setor há 31 anos, acredita que o capacete é o principal produto de segurança para um motociclista. “A maioria dos acidentes fatais com motocicleta se dão porque o condutor não estava utilizando capacete. No entanto, mesmo para quem usa, ainda pode haver problema na qualidade do equipamento. Além da certificação do Inmetro, também fazemos outros testes com os capacetes comercializados”, esclarece.

Orlando lista outros acessórios que podem assegurar menor impacto no caso de um acidente. “Estamos fazendo uma campanha para o uso de luva, porque as pessoas que andam de moto dão pouca importância para este equipamento. No entanto, quando o motociclista cai, a primeira parte do corpo a ser atingida é a mão”, pontua. “Quando se está no meio de carros, bate-se muito o pé e uma bota reforçada protege o calcanhar e o tornozelo. Outro equipamento interessante é o cinto abdominal, porque protege a região do tronco, que é vital. Colete e airbag também são interessantes. No caso do primeiro equipamento, ele se faz obrigatório para os profissionais que utilizam a motocicleta como meio de trabalho. Já o airbag esbarra na questão financeira. Estima-se que 80% das motociclistas no Brasil sejam de baixa cilindrada. Ou seja, aquele perfil de quem opta pela moto no lugar do transporte coletivo permanece dominante. E esse público não tem poder aquisitivo para comprar esse equipamento. O custo é muito alto, entre R$800 e R$ 1.500”, diz.

Orlando lembra ainda que a segurança está em questões mais sutis: “É muito importante que os pneus, lâmpadas e freio estejam em ordem. Dessa maneira, o motociclista poderá visualizar um possível buraco ou outro problema na via e tomar providência preventiva”. E conclui: “Além de usar produtos de qualidade aprovada pelo Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia) é preciso ter ciência de que não é a moto que é perigosa, é quem a conduz que causa o perigo”, completa o presidente da Anfamoto.

 

Cuidado com produtos falsos

Nem só por querer gastar pouco com segurança, o motociclista corre perigo de vida. Mesmo querendo assegurar qualidade optando por uma marca mais confiável, o consumidor ainda pode ser enganado. Gianfranco Milani, gerente de vendas da Taurus Capacetes, colaborador da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) – organização responsável pela criação da norma que conduz a fabricação e fiscalização (a cargo do Inmetro) de capacetes no Brasil – explica: “Todo capacete nacional deve ser fabricado conforme a norma, mas, infelizmente, é comum encontrarmos selos falsos. Isso acontece muito em espaços de venda online, porque o consumidor não tem garantia de procedência e a fiscalização é difícil porque ninguém registra Boletim de Ocorrência quando é lesado nesse tipo de negociação”, afirma.

Em 1983, a sociedade civil solicitou ao Inmetro que formulasse uma norma para a fabricação de capacetes para motociclistas. Assim, o Denatran obrigou a certificação e colocou este item na revisão do Código de Trânsito Brasileiro. A partir daí, a norma foi sendo revisada e deve receber nova atualização no que se refere a viseiras de capacetes em, aproximadamente, um mês.

Segundo Gianfranco, o aumento dos acidentados de motocicletas está relacionado à “imprudência e falta de uso de equipamentos de segurança. Temos que usar luvas, uma jaqueta amarela e não preta, para ser visto. Calça jeans e bota. Além disso, a maioria dos motociclistas não utiliza cinta jugular adequadamente presa. Se ele cair, acontece o mesmo que aconteceria se não estivesse usando capacete”.

E alerta:”Poucos sabem, mas, depois que se sofre acidente, o capacete precisa ser trocado. Por ter a forma arredondada, ele deforma no acidente e depois volta à posição normal. Só que o isopor que vai dentro do capacete deforma. Numa segunda queda, é grande o risco de haver impacto no mesmo lugar da primeira queda. É assim que acontece o traumatismo craniano”, encerra.

Além do capacete, outros equipamentos, como luvas, calça jeans e bota também são importantes para a proteção do condutor. (Crédito: blog.fabiomagnani.com)


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