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“Questões técnicas são possíveis de resolver, o difícil é a coragem para implantá-las”

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“Questões técnicas são possíveis de resolver, o difícil é a coragem para implantá-las”

Nesta entrevista exclusiva, o engenheiro Osias Baptista Neto, consultor em transporte e trânsito, opina sobre questões importantes do trânsito: planejamento urbano, fiscalização e políticas.

Ele já foi Diretor de Transporte Metropolitano do DER-MG, Diretor Presidente da BHTRANS, Diretor de Tráfego e de Operações da METROBEL, Presidente da Comissão de Transportes da Sociedade Mineira de Engenheiros e Coordenador do Curso de Especialização em Transportes e Trânsito da Faculdade de Engenharia e Arquitetura da Universidade FUMEC, em Belo Horizonte, entre outros cargos. Ele também é sócio diretor da BETA Engenharia e Arquitetura e já desenvolveu inúmeros trabalhos no Brasil e no exterior para clientes privados e governamentais.

Perkons – Como você avalia que as cidades devem lidar com o crescimento da população e da frota?
Osias Baptista Neto – Basicamente de duas formas:
1 – Revendo as leis de uso do solo, para compatibilizar a geração de viagens com a possibilidade de oferta de transporte público. Além de ser impossível aumentar a capacidade viária para dar conta desses crescimentos, todo aumento de capacidade gera uma valorização das regiões que o recebem, produzindo um aumento de ocupação que, por sua vez, gera uma demanda maior do que a que a nova capacidade consegue receber;
2 –  Investindo pesadamente na modificação de cultura do brasileiro em relação ao uso do carro: as pessoas, em princípio, até consideram a hipótese de deixar o carro em casa se o transporte coletivo for bom o suficiente, entretanto, só é possível fazer um transporte coletivo eficiente se as pessoas deixarem os carros em casa, para que sobre espaço para os veículos de transporte coletivo (nenhuma cidade do mundo sobrevive só com o metrô). Então é preciso quebrar esse círculo vicioso perverso, o que demanda antes de tudo coragem dos políticos responsáveis pelas decisões públicas. As questões técnicas são possíveis de resolver, o difícil é a coragem para implantá-las.

PK – Qual seria o papel dos especialistas para que as obras planejadas para a Copa do Mundo fiquem de fato como um legado pós-evento de forma a beneficiar o trânsito e o transporte local?
OBN – Olhar à frente. Pensar as cidades 10, 20 anos depois, e orientar os projetos para esse futuro, escolhendo projetos que, atendendo às necessidades da Copa, sejam coerentes com o futuro da cidade. Devem evitar os desperdícios e os elefantes brancos.

PK – Como você julga a formação de especialistas em trânsito? A formação atende à demanda?
OBN – Ainda temos muito poucos cursos específicos para a nossa área no país, é preciso investir mais nisso. Trânsito não é apenas uma questão de bom senso, como muitos políticos acham. Poucas cidades são instrumentalizadas para resolver seus problemas de trânsito e transporte.

PK – Na sua cidade, em Belo Horizonte, os vereadores querem ter o poder de barrar radares. Como você avalia a interferência de questões políticas no gerenciamento do trânsito?
OBN – Infelizmente, grande parte da sociedade julga que os delitos de trânsito são de pouca importância e sente na fiscalização uma coerção de seus direitos individuais. As pessoas se sentem competentes para decidir a que velocidade andar, que sinalização obedecer, onde parar e estacionar, sem se preocupar com o que isso implique em congestionamentos, acidentes etc. Com esse conceito, acham que a multa é uma extorsão por parte do poder público, pois ao desobedecerem a regulamentação não conseguem entender que causaram um prejuízo aos demais.
Os governos não conseguem, ou não querem, combater essa ideia quase que coletiva, sendo em geral tímidos em seus posicionamentos, buscando serem simpáticos em suas campanhas educativas e em sua forma de fiscalizar, quase que pedindo desculpas por terem de multar os motoristas. Não querendo ser autoritários, deixam de exercer a autoridade em sua plenitude. Não conseguem enfrentar os formadores de opinião que se deliciam com a pecha de “indústria de multas”.
Nesse momento o oportunismo político se inflama, pois estar do lado dessas pessoas contra a coerção de seus pretensos direitos, sempre resulta em votos ou em projeção dentro de suas carreiras. Surgem as frases tais como a de um edil belohorizontino: sou motorista há mais de tantos anos, por isso tenho mais condições de avaliar tecnicamente a colocação dos radares que o órgão responsável pela sua colocação…
Confunde-se propositalmente o infrator com o consumidor, usando-se até o Código de Defesa do Consumidor para questionar a aplicação de multas.
Enquanto isso, perdem-se vidas inocentes e recursos financeiros expressivos.

PK – E qual a sua opinião sobre mecanismos que alertam a presença dos radares: sinalização, twitter, GPS…
OBN – Eu considero livre o uso da informação. GPS e twitter apenas informam uma realidade que qualquer pessoa pode ver: onde ficam os radares. Os próprios órgãos de trânsito colocam essa informação na internet. Assim, não há como reclamar de quem divulga essas informações.
Uma visão absolutamente equivocada do Contran obriga que todos os radares sejam conspicuamente sinalizados, caso contrário a autuação não pode ser feita. O correto é caber ao órgão responsável a decisão sobre quais devem ser sinalizados, dentro de uma estratégia preventiva e corretiva, e qual o grau de visibilidade os equipamentos devem ter para os motoristas. Saber quando o radar deve funcionar como um redutor eletrônico de velocidade e quando ele deve criar nos motoristas a sensação de que podem estar sendo fiscalizados em qualquer lugar, portanto, é melhor obedecer à sinalização.
Da mesma forma como o Contran, ao impedir isso obrigando a sinalização dos radares, explicitou aos motoristas que existem placas a serem obedecidas e outras não, provocando um aumento de velocidade entre os equipamentos. Já as pessoas que avisam pelo twitter onde estão os radares portáteis contribuem para o aumento da mortalidade nas estradas, pois os avisados reduzem a velocidade, passam pelos aparelhos e depois, como sabem que tão cedo não haverá outro, aceleram. Se os radares estivessem ocultos e sem sinalização isso não aconteceria.

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