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Quando o clima muda, o trânsito também precisa mudar

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Entre os riscos associados à chuva está a aquaplanagem. Ela acontece quando os pneus não conseguem remover a água acumulada Crédito: PRF/DF

O céu escurece, a chuva começa e, em poucos minutos, uma via conhecida pode se transformar. A visibilidade diminui, o asfalto perde aderência, ventos fortes carregam galhos e folhas, e pontos de alagamento podem surgir pelo caminho. Se o ambiente muda, a maneira de dirigir também precisa mudar.

A discussão ganha importância diante de um cenário em que eventos climáticos extremos passam a fazer parte do planejamento da mobilidade. O Projeto AdaptaVias, desenvolvido pelo Ministério dos Transportes para avaliar os impactos das mudanças climáticas sobre a infraestrutura federal de transportes terrestres, analisou mais de 100 mil quilômetros de rodovias e ferrovias. Entre os riscos identificados para as rodovias estão alagamentos e inundações, deslizamentos, erosão, queimadas e altas temperaturas.

Para os próximos meses, há outro fator de atenção. Boletim divulgado em setembro pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em conjunto com outros órgãos federais, aponta mais de 90% de probabilidade de que o El Niño se configure como muito forte no trimestre setembro, outubro e novembro de 2026. Os efeitos não são iguais em todas as regiões brasileiras, mas o cenário reforça a necessidade de acompanhar as previsões e alertas meteorológicos.

No trânsito, porém, adaptação climática não diz respeito apenas às obras de infraestrutura. Ela começa também nas decisões tomadas ao volante. “Uma via que o motorista percorre todos os dias pode apresentar condições completamente diferentes durante uma chuva intensa. Não basta conhecer o caminho. É preciso perceber o ambiente e adaptar a condução ao que está acontecendo naquele momento”, explica Luiz Gustavo Campos, diretor e especialista em trânsito da Perkons.

O limite não é uma meta

Um dos erros mais comuns diante da mudança das condições meteorológicas é acreditar que permanecer dentro do limite regulamentado da via significa, por si só, estar em uma velocidade segura. O Código de Trânsito Brasileiro estabelece que, ao regular a velocidade, o condutor deve observar constantemente as condições físicas da via e do veículo, as condições meteorológicas e a intensidade do trânsito, além de obedecer aos limites estabelecidos.

Isso significa que a velocidade indicada na sinalização é um limite máximo, e não uma velocidade que necessariamente deve ser mantida em qualquer circunstância. Sob chuva, com baixa visibilidade ou pista comprometida, pode ser necessário circular abaixo desse valor. “A sinalização continua sendo a referência, mas o condutor precisa fazer uma leitura das condições que encontra. Se a aderência e a visibilidade diminuíram, manter o mesmo comportamento de um dia seco significa ignorar que parte das condições de segurança daquele deslocamento também mudou”, afirma Campos.

Além da velocidade, a distância em relação ao veículo da frente também precisa acompanhar essa mudança. Com o pavimento molhado, a frenagem é prejudicada e pode provocar perda de controle.  A fiscalização eletrônica também participa desse processo ao contribuir para o cumprimento dos limites de velocidade.

Quando o pneu deixa de encontrar o asfalto

Entre os riscos associados à chuva está a aquaplanagem. Ela acontece quando os pneus não conseguem remover a água acumulada e perdem o contato com o pavimento. Nesse momento, o motorista pode perder o controle direcional do veículo. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) aponta que, além da quantidade de água sobre a pista, fatores como velocidade, condições dos pneus, qualidade do pavimento e capacidade de escoamento da água influenciam a ocorrência do fenômeno.

A combinação ajuda a mostrar por que a segurança em períodos de chuva não depende de um único elemento. Se ocorrer aquaplanagem, a orientação da PRF é retirar o pé do acelerador para reduzir gradualmente a velocidade, manter o volante firme e evitar frenagens bruscas até que os pneus recuperem a aderência.

“Quando há água sobre a pista, aumentar a velocidade significa diminuir ainda mais a margem disponível para corrigir uma situação inesperada. Por isso, a condução preventiva precisa começar antes de o motorista perceber que perdeu o controle”, ressalta Campos.

Há situações em que seguir não é a melhor escolha

Adaptar-se também significa reconhecer quando não há condições para continuar o deslocamento. Em uma chuva muito intensa, quando a visibilidade fica severamente comprometida, a orientação é procurar um local seguro para interromper a viagem assim que isso puder ser feito sem criar outro risco. Parar na pista deve ser evitado.

Alagamentos exigem uma decisão ainda mais cuidadosa. A aparência da superfície não permite saber com segurança a profundidade da água, as condições do pavimento abaixo dela ou a intensidade de uma eventual correnteza. Diante da dúvida, procurar uma rota alternativa é mais seguro do que tentar atravessar.

Planejar o trajeto, acompanhar alertas meteorológicos e observar as condições da via passam, portanto, a integrar a própria decisão de mobilidade. “O motorista está acostumado a pensar no caminho em quilômetros e minutos. Em situações meteorológicas adversas, é preciso acrescentar outra pergunta: quais são as condições para fazer esse percurso com segurança hoje? Às vezes, a melhor decisão será reduzir a velocidade. Em outras, será mudar a rota ou esperar”, destaca Campos.

As mudanças climáticas colocam diante das cidades grandes desafios. Infraestrutura mais resiliente, sistemas capazes de responder a eventos extremos, fiscalização, informação e planejamento serão cada vez mais importantes. Mas há uma adaptação que acontece dentro de cada veículo. Quando o clima muda, insistir em dirigir da mesma maneira deixa de ser apenas um hábito, torna-se um risco.

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