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O trânsito que mata, mas não preocupa

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    Desde 1995, passei a fazer um pedido ao final de cada ano: que eu jamais tivesse um ano como aquele, onde recolhi meu filho no asfalto em uma madrugada fria de Porto Alegre. No ano seguinte criamos a Fundação Thiago de Moraes Gonzaga e o Programa Vida Urgente, com objetivo de evitar que outros jovens percam a vida quando o que mais querem é viver. Ao longo destes 13 anos, desde que iniciamos esta caminhada em defesa da vida, já tivemos muitas conquistas importantes. A aprovação do novo Código de Trânsito Brasileiro; a Lei Seca, que para nós é a Lei da Vida, que nos primeiros 30 dias de sua implantação reduziu em mais de 40% das internações nos principais hospitais e prontosocorros de nosso País; mais de 70 mil crianças de dois a seis anos participaram do projeto de educação Contadores de Histórias em nossa sede; o Vida Urgente no Palco que, com seus quatro espetáculos, já atingiu mais de um milhão de espectadores pelo Brasil afora; e contamos com mais de 15 mil voluntários, nos 27 estados brasileiros, que clamam pelo mesmo objetivo: vida.
    E foi para falar de vida que em novembro embarquei para Moscou para participar da 1ª Conferência Ministerial Global pela Segurança no Trânsito. Na bagagem levava a esperança de que juntos poderíamos encontrar formas de preservar muitas vidas. Ao saber que o governo brasileiro havia ignorado a Conferência, fui transportada ao ano de 1995 e o que senti quando perdi meu filho e me motivei a criar a Fundação. Na época me senti sem pátria, abandonada à própria sorte pelo meu País, um País que pouco ou quase nada fazia para preservar as vidas de jovens como meu filho Thiago.
    Este País se apresentava, mais uma vez para mim, perverso, indiferente, negligente, despreocupado. Na abertura da conferência, na presença de líderes mundiais de mais de 150 países, o presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, pediu um minuto de silêncio em memória das vítimas do trânsito no mundo. Em um imenso telão, o rosto de 15 jovens representavam as mais de 1.300.000 vidas perdidas no trânsito. A foto do meu Thiago representava o Brasil. Nem as alarmantes projeções de que em 2020 os acidentes irão alcançar o primeiro lugar das causas de morte no mundo, principalmente em países como o Brasil, que ocupa o 5º lugar no ranking dos países que mais matam no trânsito (junto com a Rússia, Estados Unidos, China e Índia), foi suficiente para colocar a conferência na pauta das autoridades brasileiras. Realmente, parece que eles estão mais preocupados com a próxima eleição do que com a próxima geração.
    Enquanto isso, as manchetes estampadas nos jornais anunciam mais um final de ano extremamente violento no trânsito brasileiro. Renato Russo perguntaria: Que País é este? Suportar o silêncio e a omissão daqueles que deveriam estar à frente de iniciativas que busquem uma solução para tamanha tragédia só não é pior e mais difícil que ver a imagem do meu filho, de apenas 18 anos, representando uma gigantesca tragédia brasileira e de receber em nossa sede nos grupos de apoio, quase que diariamente, pais órfãos de filhos. E como mãe, só vejo uma saída para essa realidade: que todos cuidem e protejam a vida de seus amores. É um novo ano, tempo de renovar as esperanças e de transformar desejos em atitudes. Bem-vindo 2010 e que a vida seja a grande prioridade para todos nós.

Diza Gonzaga
Presidente da Fundação Thiago de Moraes Gonzaga


Originalmente publicado no Jornal do Comércio (RS) em 30/12/2009.

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