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Espaço compartilhado

por Prof. Dr. Archimedes A. Raia Jr.*

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Existe no redor do mundo uma série de iniciativas de sucesso, que tornam a convivência no trânsito mais saudável e segura, contribuindo para cidades mais sustentáveis e com melhor qualidade de vida. Uma delas é a chamada “espaço compartilhado”.

Espaço compartilhado (em inglês, shared space) é uma abordagem de projeto urbano que procura minimizar as separações entre o tráfego de veículos e os pedestres, muitas vezes retirando recursos como meio-fio, marcações da superfície da via, sinais de trânsito e regulamentos. Normalmente, é utilizado em ruas locais, mais estreitas, no do núcleo urbano. Pode ser usado, também, em ruas que se localizam em áreas residenciais.

O conceito foi desenvolvido, inicialmente, na Dinamarca, na região norte da Holanda, na Suécia e norte da Espanha e depois no resto da Europa, embora o Programa francês, denominado de “Ville plus sure” adotou muitos destes princípios-chave e são muito comuns em cidades e vilarejos franceses. Sua adoção no Reino Unido é mais recente e até os dias atuais ainda são poucos os exemplos no campo de projetos que claramente podem ser definidos de espaço compartilhado.

Esses esquemas são, muitas vezes, motivados por um desejo de reduzir a predominância de veículos, as velocidades de veículos, e as taxas de acidentes rodoviários. Ele foi proposto pela primeira vez, em 1991, e o termo é agora fortemente associado à obra de Hans Monderman, que sugeriu que a criação de uma maior sensação de incerteza e tornando-se claro que o pedestre tinha a preferência de passagem, que os motoristas tinham de reduzir a velocidade, e todo mundo reduz o seu nível de compensação de risco.

O objetivo do “espaço compartilhado” é melhorar a segurança viária e revitalizar vias secundárias e cruzamentos no sistema viário, particularmente aqueles com alto volume de pedestres, pelo incentivo à negociação de áreas compartilhadas entre seus diferentes usuários.
O conceito de espaços compartilhados procura minimizar as separações entre veículos e pedestres. Segundo alguns especialistas, dentre eles os do Governo inglês, ele reduz a dominação prevalente dos veículos motorizados em relação aos pedestres e permite que todos os usuários compartilhem os espaços.

Um trabalho elaborado pelo Departamento de Transportes do Reino Unido deixa claro que o espaço compartilhado é muito mais uma filosofia de design do que propriamente questão de padrão de projeto.

Hans Monderman sugere que o comportamento das pessoas no trânsito é mais positivamente afetado pelo ambiente construído do espaço público do que pelos convencionais dispositivos e regulamentos de controle de tráfego.

Uma razão para o aparente paradoxo que a diminuição da regulamentação conduz a vias mais seguras pode ser obtida através de estudos dos efeitos da compensação do risco. Há autores que afirmam que o espaço compartilhado é exitoso devido à percepção de que o risco é um pré-requisito para incrementar os objetivos de maior segurança viária. Para outros autores, nas situações prevalentes atuais, as pessoas perdem suas capacidades de ter um comportamento socialmente responsável.

Para se ter um entendimento de como o espaço compartilhado funciona, é fundamental se distanciar da dependência de direitos e das leis, e reconhecer o potencial para se utilizar de convenções e protocolos. Essas convenções e protocolos evoluem rapidamente e são muito eficazes se o Estado não intervir através de regulamentação.

A introdução de tais sistemas, em algumas cidades, teve efeito muito positivo na segurança viária, no volume de tráfego, a na vitalidade econômica e coesão da comunidade, onde o comportamento de um usuário torna-se influenciado e controlado por interações humanas naturais, em vez de regulação artificial. Esta maneira de se pensar o projeto viário, no entanto, é entendido como negativo por várias organizações que representam os cegos, amblíopes e surdos. Algumas dessas organizações afirmam que alguns de seus membros evitam utilizar usar essas áreas compartilhadas.

Esta a abordagem também tem sido aplicada para vias mais movimentadas como, por exemplo, a Exhibition Road, em Kensington, Londres. Projetos como o da Exhibition Road, atuam de forma a eliminar os limites entre as zonas de pedestres e de tráfego, retirando guias de calçada, placas e semáforos, e incorporando bancos e árvores, e pavimentando a via inteira com um único pavimento.

Outro exemplo de aplicação do conceito de espaço compartilhado é área de De Kaden, na cidade holandesa de Drachten. Ainda que ela apresente um volume considerável, foram implantadas poucas medidas para controlar o tráfego. A antiga pista de rodagem foi reformada, em 1998, e hoje é parte integrante dos espaços públicos em torno, que apresentam árvores e postes de iluminação.

Ao certo, trata-se de uma única grande praça pavimentada, que na maior parte de sua área pode ser utilizada por qualquer tipo de tráfego. Ela não apresenta calçadas, nem mesmo pisos de diferentes alturas ou pistas para bicicletas. Os veículos só são excluídos de uma esquina por meio de balizas. Os pedestres podem atravessar a rua em ziguezague em meio ao trânsito que circula, enquanto a vida social dos bares e lojas adjacentes se integra de maneira harmônica à rua.

Enfim, este conceito é ainda pouco conhecido no Brasil e requer um alto grau de civilização e respeito, coisas pouco encontradas, principalmente, quando se fala de trânsito no país. Valeria a pena mudar este comportamento.

*Prof. Dr. Archimedes Azevedo Raia Jr.
Engenheiro, Mestre e Doutor em Engenharia de Transportes pela USP, professor e coordenador do Núcleo de Estudos em Engenharia e Segurança de Tráfego Sustentável da UFSCar e co-autor do livro “Segurança no Trânsito”, Ed. São Francisco. E-mail: raiajr@ufscar.br

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