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Educação eficiente de condutores é única solução para escalada de acidentes

por Roberto Agresti*

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O vertiginoso crescimento nas vendas de motos ocorrido na última década trouxe para as ruas uma legião de novos motociclistas, que são vistos ao mesmo tempo como vilões e vítimas.
Pilotando de modo irresponsável e agressivo especialmente nas grandes cidades, uma incivilizada horda, minoria muito visível, angariou para todos os que se locomovem com motos um sentimento de repulsa por parte dos outros motoristas. A reciprocidade desta agressividade é automática, e o resultado desse difícil convívio, grave, e contabilizam-se mortes em número crescente, assim como a legião de incapacitados por acidentes. Diante do quadro cada vez mais grave, a sociedade exige ações que contenham a escalada do problema.
Do lado mais radical, há os que defendem a improvável eliminação da motocicleta de nossas ruas e estradas, coisa que pode parecer paradoxal, mas que não está apenas no ambiente das ideias. Na cidade de São Paulo, na Marginal Tietê, uma das vias mais criticas em termos de tráfego de veículos e acidentes com motos, elas foram proibidas de circular em alguns trechos. Uma solução certamente pouco democrática mas de efeito direto: sem motos ali, não mais ocorreram acidentes. Não ocorreram ali, bem entendido.
É senso comum que o atual modo de concessão da carteira de habilitação é inadequado. O exame prático, datado dos anos 1980, não examina a capacidade do candidato a “sobreviver” no trânsito, apenas verifica sua habilidade de conduzir o veículo em baixa velocidade e recinto fechado.

FALTA BOA FORMAÇÃO
Segundo Wilson Kenji Yasuda, coordenador de segurança viária da Abraciclo (a entidade dos fabricantes de motos no Brasil), o problema não está apenas no fato do modelo de avaliação ter caducado, mas sim por que falta um padronização: “O código faz menção a um trajeto e manobras que o motociclista deve cumprir, mas não há um croqui da pista, e sendo assim, o circuito de avaliação difere de cidade para cidade. E além disso há o problema do instrutor, pois infelizmente só 5% deles têm formação específica para treinar motociclistas. Ou seja, o lugar é inadequado e quem treina não tem conhecimento.”
Ainda segundo Yasuda, uma evidente prova da má formação dos novos motociclistas vem de uma informação fornecida pela divisão de peças da Honda, a maior fabricante de motos instalada no país. A venda de sapatas de freio mostra que 10% é de dianteiras e 90% de sapatas traseiras.
“Qualquer um que tenha sido convenientemente instruído a pilotar motocicletas sabe que o freio principal é o dianteiro, e que portanto essa proporção de consumo deveria ser exatamente inversa. Acontece que os instrutores treinam o candidato para passar no exame e não para andar bem de moto, e um procedimento comum é elevar a marcha lenta do motor, para evitar que ele ‘morra’ no percurso, e orientar o candidato a controlar a velocidade da moto usando o freio traseiro, com o pé direito. Assim, esse padrão de pilotagem errado vira padrão, resultando em sérios problemas de segurança, pois a frenagem priorizando o freio traseiro é totalmente menos eficaz e insegura na maioria das situações”, complementa Yasuda.

FALTA VIVÊNCIA
Outra realidade a ser considerada como motivadora de tantos acidentes com motociclistas recém habilitados — além das más condições de ruas e estradas já mencionada em coluna anterior e o brutal crescimento da frota — provém da própria origem social desse novo usuário de motos. Em um passado recente, nos anos 1970 e 1980, a motocicleta era um veículo elitista, empregado por uma minoria e na maior parte das vezes, para lazer.
Por conta de tal exclusividade e preço elevado, os clientes eram provenientes de camadas sociais mais abonadas, gente que desde criança esteve exposta ao uso de veículos: automóveis (ou até mesmo motos) faziam parte do dia a dia deste classe desde a infância e assim, uma vez chegada a idade da habilitação, os candidatos traziam uma grande carga de informação nem que fosse pela simples observação.
Hoje a melhoria das condições econômicas de grande parcela da população, o maior acesso a crédito e a vontade cada vez mais premente de se livrar dos maus tratos impingidos pelo transporte público de má qualidade direciona novos clientes à moto, pessoas que vêm de camadas sociais que não puderam ter o benefício deste “exemplo caseiro” para compreenderem os sistemas de mobilidade, seja do ponto de vista técnico, do uso do veículo em si, seja do comportamento viário. Uma coisa é ter crescido habituado a observar o pai ou a mãe dirigir, bem outra é tê-lo feito passageiro de trens ou ônibus.
Há, portanto, uma falta de educação de base direcionada ao comportamento no trânsito, um desconhecimento grande de regras básicas de circulação viária. A soma deste aspecto com a inadequada formação teórica e prática exigida para a conquista da CNH é um coquetel explosivo e que resulta na grave realidade atual.
Diante do cenário nada fácil, fica claro que ações múltiplas devem ser tomadas, mas que a mais importante delas diz respeito ao principal aspecto que estabelece a qualidade de vida de uma nação: o investimento na educação do cidadão.

 

*Roberto Agresti
Editor da Revista da Moto! desde 1994. Sua estreia na imprensa automotiva foi em 1984, com passagens pelas revistas Motoshow (atual Motor Show) e Motor 3. Colabora com avaliações de carros no site Best Cars desde 2007, mas sua especialidade e paixão são as motocicletas. A coluna Moto! é publicada às sextas-feiras só em UOL Carros.


Opinião originalmente publicada no portal UOL Carros, em 01.06.2012.

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