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Não estamos apostando corrida

por José Mario de Andrade*

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Contagem regressiva para que o semáforo fique vermelho estimula o motorista a aumentar ou reduzir a velocidade? Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), realizada pela tecnóloga Luciana Maria Gasparelo Spigolon, aponta que, talvez, os motoristas de São Carlos, Piracicaba e Ribeirão Preto estejam preparados para trafegar com os chamados temporizadores.
O levantamento testou os dispositivos em 29 cruzamentos dessas cidades, resultando numa redução média de 25% dos acidentes nas localidades; em São Carlos, a análise foi ainda melhor: 35% de redução de colisões e outros tipos de violências no trânsito.
Mesmo com os bons números, qualquer intervenção no trânsito precisa considerar seus impactos, condições de absorção e dinâmica. Quando apresentamos ao motorista mais um display com números decrescentes, pede-se ao condutor que processe mais essa informação, o que pode implicar num déficit de atenção aos outros componentes do trânsito: pedestres, outros automóveis e tantos outros fatores que podem gerar acidentes.
O uso do temporizador precisa ser considerado caso a caso, de acordo com características do cruzamento, volume de tráfego. Mas, em hipótese alguma deve ser uma obrigação o seu uso, como prevê um projeto de lei 6052/09, do deputado Manato (PDT-ES). A proposta do parlamentar contempla semáforos que estejam integrados aos equipamentos de fiscalização eletrônica (radares) para dar ciência ao motorista sobre a possibilidade de seguir ou não. Esse projeto já está sob análise das comissões competentes da Câmara Federal: Viação e Transportes; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.
Se o objetivo da instalação dos temporizadores é maior segurança no trânsito, faz-se necessário, acima de tudo, observar o perfil do motorista daquela região. O verdadeiro caldeirão cultural brasileiro não permite um simples decreto – como alinhar hábitos regionais, permissões de velocidades diferentes e a realidade dos milhares de motoristas despreparados?
O estudo da mestre em Engenharia de Transportes da USP também fala da questão da fluidez do tráfego: precisamos considerar uma frota crescente em velocidade vertiginosa, o que a perda de tempo no trânsito acarreta para a economia e também a questão do aproveitamento das tecnologias já existentes, que não podem ser ocultadas por novas aparentes soluções. As leis e sinalizações presentes nas vias estão aí para serem cumpridas.
A verdade é que, mesmo depois de 13 anos de Código de Trânsito Brasileiro, algumas revisões e remendos, o trânsito trilha o mesmo caminho: a tecnologia só pode ser bem explorada quando a mola mestra dele – o motorista – se conscientizar de que não estamos disputando uma corrida, mas trabalhando em prol da mobilidade como um todo.

 

*José Mario de Andrade
Especialista em trânsito e diretor da Perkons – empresa especializada em tecnologia para a segurança e gestão integrada de tráfego.

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