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Viva a Faixa! Viva a Vida!

por Carlos José Antônio Kummel Félix*

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Locais demarcados para a travessia de pedestres são um espaço de conflito entre quem dirige e quem anda a pé.
Muito elogiável é a iniciativa do Grupo RBS Santa Maria em protagonizar uma campanha de segurança no trânsito focada especialmente na faixa de segurança! Esta faixa é o ponto mais seguro de travessia no ambiente de circulação. É, também, um espaço de disputa entre motoristas e pedestres, como todo o espaço viário onde se conflitam os principais interesses do tráfego: velocidade versus segurança.
Velocidade que transforma nossas vidas em pressa, pois temos pressa de chegar, de fazer, de sair… Afirmado, até, pelo famoso ditado: tempo é dinheiro! Ao se perceber a efemeridade de nossas vidas, cada vez mais, as pessoas irão privilegiar a rapidez, ou seja, aproveitar ao máximo o tempo disponível.
No entanto, toda essa velocidade e rapidez – talvez insensatez – podem ser interrompidas abruptamente por um evento momentâneo, triste, decisivo, definitivo: um acidente. E aí? Nada mais adianta… Então para podermos viver melhor, aproveitando a vida e o tempo, o mais importante e necessário é privilegiarmos a segurança. Assim, tirando vantagem dessa oportunidade de circulação, inerente à civilização atual.

O planeta é cada vez mais urbano

As mudanças enfrentadas em escala mundial, tanto em termos políticos, sociais e econômicos, como nas concentrações populacionais, são um imenso desafio, requerendo muito esforço e uma nova visão organizacional para o desenvolvimento urbano, dos transportes e do trânsito. É possível que a busca de melhores condições de vida e a crescente necessidade das pessoas por realizarem suas atividades seja uma das razões para que o planeta já seja, predominantemente, urbano.
Essa condição exige permanente investimento em capacidade dos sistemas de infraestrutura, para suportar as crescentes demandas. No entanto, sabe-se das carências desses sistemas (viário, transporte, abastecimento, esgoto, energia etc.). O Brasil foi um dos países que mais se urbanizou nos últimos 50 anos, com todas as suas possibilidades e potenciais associados as suas privações, especialmente, de acessibilidade e mobilidade.
Veja só, não é fácil ser privado dessas facilidades em um ambiente onde se espera o inverso – maiores oportunidades de circulação. Os veículos foram inventados para transportar as pessoas com maior rapidez do que os meios de transporte de outrora e não para imobilizá-las, como acontece atualmente. Não é novidade o fato de que, com o uso excessivo do transporte individual em detrimento do transporte coletivo, as cidades estão quase parando, congestionadas.
Nossas cidades cresceram, na maioria das vezes, sem orientação, por problemas históricos, prejudicando seu melhor desenvolvimento, e todas as suas relações. Nisso se fundamenta o sistema de atividades – que é a realização de todas as suas funções: morar, trabalhar, estudar –, organizadas pelo uso do solo – representada pela localização destas atividades. Tudo isso interligado pelo sistema viário (avenidas, ruas, calçadas e passeios públicos), com possibilidades de deslocamento e circulação pelo sistema de transportes: ônibus, automóveis, motos, bicicletas e andar a pé.
Até esquecemos que podemos e devemos caminhar. Andar a pé é o ato mais humano da circulação, é a sua essencialidade. É a nossa principal, natural e mais segura forma de se deslocar. Somos sempre pedestres, todo o tempo. Desta maneira, deve-se promover as melhores oportunidades e preferências de deslocamento para as pessoas, e não para os veículos, principalmente, onde se concentram os maiores adensamentos urbanos, normalmente nos centros das cidades – isso é mobilidade!
Os principais centros urbanos mundiais, especialmente, cidades europeias e as já consideradas como exemplos, tais como: Curitiba e Bogotá, têm esses objetivos, contribuindo para o desenvolvimento de cidades vibrantes e comunidades sustentáveis, onde os moradores podem desfrutar de grandes espaços públicos e com oportunidades de viverem mais seguros e felizes.

É preciso ter mais segurança de tráfego

Em nosso planeta, a cada ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1,3 milhão de pessoas perdem a vida, vítimas dos acidentes de trânsito, além de milhares que sofrem lesões, muitas delas, permanentes e irreversíveis. Esse número é relativo às vítimas diretas dos acidentes de trânsito. Outras, que sofrem ferimentos graves, mas são socorridas e morrem logo após, não entram nestes números e sim nas estatísticas de feridos em acidentes de trânsito com outra causa de morte. Essa análise deve ser mais aprofundada e considerada pelas autoridades competentes.
É inadmissível, neste nosso mundo moderno, saudado por muitos como tecnologicamente desenvolvido, onde enfrentamos e, às vezes, vencemos imensos desafios, deparar-se, seguidamente, com as manchetes: “Feriado sangrento”, “Vítimas do trânsito!”…
Para enfrentar essa realidade, a Comissão Global para a Segurança no Trânsito da ONU lançou um plano de ação denominado Década de Ações para a Segurança no Trânsito 2011/2020. Este movimento possui como principal objetivo reduzir em 50% os números de lesões e mortes causadas pelos acidentes de trânsito. Recomendando a todos os 192 países membros que adotem medidas eficazes de atenção e prevenção contra a violência no trânsito que é, sem dúvida, a principal causa de morte prematura e de ferimentos incapacitantes na população jovem de todo o mundo.

Esse plano se articula em torno de cinco pilares:

1) Gestão da segurança do trânsito;
2) Infraestrutura mais segura e mobilidade;
3) Veículos mais seguros;
4) Usuários mais seguros;
5) Atendimento às vítimas.

Educação reflete no comportamento

Nota-se, também, que há uma transformação social que não se resolve com políticas de mobilidade urbana: as pessoas estão cada vez mais desumanas no trânsito. Essa é outra preocupação. Agora é o momento de fazer a nossa parte, contribuir para reduzir as vítimas desta guerra que mata e fere mais que muitas guerras reais. Tem-se que aprender e conceber os deslocamentos de forma mais racional, econômica e, ressalte-se, mais segura. Isso depende de todos!
As vias e os veículos, por sua vez, não representam maiores ameaças – a não ser que não propiciem as condições de circulação, pelo seu mau estado ou conservação. O que torna o trânsito mais (ou menos) violento são os seres humanos, com sua pressa e intolerância, com sua (falta de) educação e cultura.
Necessita-se, cada vez mais, de paciência, tolerância, tranquilidade, cortesia, cordialidade e respeito. Já sabemos o que é certo e o que é errado. Temos leis, informações, campanhas e, muitas vezes, fiscalização. O que pode mudar é a maneira como cada um se comporta no trânsito.
Para um trânsito seguro é urgente a necessidade de se rever e repensar valores e atitudes. Demonstrar compreensão e consideração ao outro.
Essa é uma questão comportamental. Respeite a faixa!
Trânsito seguro – compromisso com a vida!

 

*Carlos José Antônio Kummel Félix
Professor do Departamento de Transportes – CT/UFSM

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