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“Nossa escala não comporta uma folga de 11 horas”

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Os senadores aprovaram há duas semanas (13/12) um texto que proíbe os motoristas profissionais de dirigirem por mais de quatro horas ininterruptas; eles devem fazer um intervalo de no mínimo 30 minutos para descanso e, além disso, a cada 24 horas ter um intervalo mínimo de 11 horas. A Perkons entrevistou um motorista profissional de uma das maiores empresas de transporte de passageiros do Paraná. Ele permanece anônimo porque faz denúncias alarmantes. Confira.

Perkons – Como é seu dia a dia no trabalho?
A nossa empresa faz serviço para várias empresas. Durante a semana a rotina é até tranquila, ficamos mais na cidade, mas final de semana temos viagens e aí acontece da gente se desgastar e acabamos não conseguindo tirar descanso.

Perkons – Mas vocês pegam estrada mesmo depois de trabalhar durante o dia?
Sim, temos filhos e muitas vezes nessa parte a gente acaba pecando, porque vamos pra estrada à noite, mesmo cansados. A empresa não quer saber se você está cansado ou não, só que nós também temos nossos compromissos financeiros e aí isso pega e a gente acaba trabalhando demais, trabalha a noite toda.

Perkons – Que perigo…
A gente acaba trabalhando excessivamente. Se você não faz, tem dez que querem fazer. E como temos contas pra pagar, você acaba se submetendo. Só que infelizmente a carga fica maior, demais.

Perkons – A empresa não faz controle das horas que você esteve na estrada para fazer você tirar um descanso?
Não, porque o transporte em si cresceu muito e hoje em dia estamos com déficit de cem motoristas. Essa época do ano tem muita viagem, o desgaste é maior e é onde acontecem mais acidentes. Quando você pensa que vai pra casa descansar, teu chefe já te chama pra outra viagem.

Perkons – E se você se negar?
Não tem nem como falar que não vamos fazer. De uma forma ou outra, você se queima. Se acontece de precisar mandar alguém embora você é o primeiro da lista ou te colocam em trechos ruins. Na prática acontece que você vai, não nega, não tem opção, até porque não tem muito motorista. Ganhamos por diária, quanto mais, melhor. Mas chega num ponto que não aguenta. E aí que acontecem os acidentes, você sai da pista. Sua segurança vai a zero.

Perkons – Como se manter acordado?
Quando chega três, quatro horas da manhã, que é o pior horário, e você está mais de 12 horas ou 15 horas sem dormir, seu sono começa a bater. Usa a garrafa de café, joga água na cabeça, são coisas que fazem parte. Às vezes a viagem é até curta, mas pelo cansaço se torna longa.

Perkons – Talvez seja aprovada uma lei que determina o descanso a cada quatro horas de viagem e tem que fazer folga de 11 horas a cada 24 horas. O senhor acha isso viável?
Muitas empresas fazem os motoristas dirigirem nove horas direto. Às vezes faz 700 km direto, ou com 25 minutos de descanso só. Não é o caso da minha; mas conheço colegas que saíram de empresas assim. A maioria dos acidentes, quando é madrugada, é falha humana, porque o corpo não aguenta. Eu acho que não vai pegar essa lei. Teoricamente tudo bem, mas na prática não dá, porque a falta de profissional é muito grande. Na prática o patrão quer que você trabalhe, se você não aguenta, ele tira e coloca outro, que nem máquina. Até pode ser colocado em votação, mas não existe, nossa escala não comporta uma folga de 11 horas. Isso vai ficar no papel. Que bom se fosse realidade. Nossa responsabilidade é muito grande e o ganho é muito pequeno. E só dão valor quando sai notícia que morreram 30 pessoas. E se você faz movimento pra sair uma greve pra mudar, você sai da empresa, o sindicato também é fraco e não luta por nós. Ele só existe no papel.

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