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”Não faça do seu carro uma arma”

Carros velozes e potentes são uma contradição no espaço urbano

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“Não faça do seu carro uma arma. A vítima pode ser você”. Esta frase, famoso slogan de uma campanha de trânsito na década de 70, pode perfeitamente ilustrar qualquer campanha da atualidade pela redução de velocidade, sobretudo dos motoristas que possuem carros potentes e velozes. Problema do veículo? Não. Para alguns especialistas, o responsável é quem está por detrás do volante – os motoristas, que transformam os seus carros em armas potenciais.
A psicanalista e psicóloga, Linda Luiza Vendruscolo, afirmou que carro e arma são inertes, não têm vida própria. São acionados a partir da interferência que o ser humano provoca. “Uma arma não dispara sozinha. E nem um carro vai sozinho colidir em alta velocidade com outro”, compara, numa analogia simplista. Esse “gatilho” é acionado por quem conduz o veículo, que muitas vezes age sem condições emocionais para fazê-lo ou até mesmo tomado por reações impulsivas, provocadas por diversos fatores.
Para ilustrar, Linda lembrou-se do episódio recente, ocorrido em Porto Alegre, em que um motorista acelera o veículo e parte para cima de ciclistas que trafegavam na cidade. O motorista alegou que foi provocado por um grupo e, numa atitude intempestiva, acelerou o carro. “Será que este carro não foi uma arma para os ciclistas?”, reflete. Do mesmo modo, algumas perícias constatam o uso do veículo em velocidade muito acima da máxima permitida como alternativa de suicídio do motorista. “Essa tentativa de suicídio tem o carro como arma”, pondera.
A própria Polícia Rodoviária Federal do Paraná, em parceira com a concessionária Ecovia, assinou uma campanha em que compara os diversos tipos de acidentes a diversos tipos de armas.

Contradição
Se, por um lado, a indústria automobilística tem desenvolvido carros cada vez mais potentes e  mais velozes, por outro, o trânsito, cada vez mais caótico em grande parte devido ao aumento vertiginoso da frota, impede que eles atinjam seu completo desempenho nas vias urbanas. No Brasil, estima-se que sete mil novos carros chegam às ruas diariamente, levando ao cálculo de um carro para cada seis habitantes.
A lógica da contradição pode não parecer tão óbvia, e realmente não é. A primeira e mais evidente conexão reside no fato de que a quantidade de cavalos desenvolvida pelo motor é mera coadjuvante diante da impotência do motorista em poder usufruir tamanho benefício nas ruas, especialmente nas cidades.
“Primeiro, porque os limites legais de velocidade não permitem que esses carrões desempenhem a performance que prometem. E, segundo, porque a própria concentração de veículos nas vias muitas vezes impede a façanha“, afirma o especialista em trânsito José Mario de Andrade.
Faz sentido pensar que os congestionamentos são um obstáculo para os motores potentes, ainda mais quando se observa a crescente popularização desses veículos.”Por outro lado, os condutores, para compensar o tempo perdido e a limitação imposta pelos engarrafamentos, acabam excedendo a velocidade nas vias e rodovias com tráfego livre”, completa Andrade. Mas o raciocínio não é tão simples quanto aparenta ser. A potência do motor não se resume à garantia de maior velocidade.
De acordo com o perito criminal, Altamir Coutinho, “a potência é apenas uma parte da tecnologia embarcada no veículo. À ela, somam-se outros recursos, como  freio ABS com EBD (eletronic brake distribuition – que impede o travamento das rodas), sistema de controle de estabilidade do carroque, obviamente, trazem maior sensação de segurança”, diz Coutinho, e acrescenta: “Essas facilidades podem, no entanto, levar o condutor a se arriscar mais”.

Ameaças
Mais segurança e conforto são somente alguns atributos que carros mais potentes oferecem. O mercado de automóveis tem criado condições extremamente favoráveis aos condutores, como direção elétrica (que facilita as manobras), farol com acionamento automático, sensor de estacionamento, aquecimento dos bancos, entre outros.
Nesse sentido, há que se considerar os riscos a que motoristas e passageiros estão submetidos. Para Coutinho, “todo esse conforto provoca, de certa forma, uma monotonia na condução. As vantagens de não precisar trocar de marcha, deixar no piloto automático, fazem com que o motorista não interaja com o carro. Estamos chegando em níveis de conforto antes inimagináveis em veículos nacionais”, alerta.
Esse raciocínio pode levar, mesmo que sem querer, a uma conclusão trágica. É possível imaginar que quanto mais potência, velocidade e conforto um carro oferece, mais inseguro se torna o trânsito. Mesmo que o número de acidentes não seja maior por conta disso, a gravidade das ocorrências, tendo em vista a força do veículo, é certamente maior.
De acordo com Andrade, apesar de a potência do veículo, sozinha, não ser responsável por causar acidentes, pode contribuir em última instância. “Isso porque a segurança no trânsito só é possível quando se combina um carro seguro, com uma via segura e com uma atitude segura do condutor. E, por carro seguro, entende-se um veículo dotado de equipamentos que previnem e/ou reduzem o impacto de acidentes. Mais do que isso, o carro ideal seria aquele cuja velocidade não fosse além do que a legislação determina”, explica.
O ponto crucial, e que não pode ser esquecido, encontra-se em quem pode atuar intencionalmente no trânsito: o motorista. “O carro e a estrada são elementos passivos no resultado de um acidente. Quem realmente interfere, conduzindo de forma agressiva, mesmo estando a bordo de um veículo com 70 cv, é o homem. Este, sim, pode modificar e potencializar o efeito de um acidente no momento em que embarca em um veículo, seja qual for o modelo ou a potência”, ressalta Coutinho.

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