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Dois passos adiante, por Eduardo Biavati

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    Por que as campanhas públicas de segurança no trânsito são tão fracas no Brasil? Por que lhes falta a força e o impacto emocional das campanhas estrangeiras? Quantas vezes assistimos a mais uma nova campanha, para concluir que “isso não serve pra nada!!“?
    O desconforto com a suavidade e o bom-mocismo das campanhas tupiniquins foi aumentando nos últimos anos por causa do Youtube – santo Youtube! Os produtores de conteúdo descobriram rapidamente que bastava disponibilizar seu acervo para que uma audiência global se encarregasse de multiplicá-lo ilimitadamente. Enquanto aqui as escassas produções não eram compartilhadas nem mesmo entre os órgãos estaduais e municipais de trânsito (e ainda não são, com raras exceções), tudo o que norte-americanos, ingleses, franceses e australianos produziam, em qualquer mídia, era imediatamente disponibilizado para consumo universal. Não era apenas uma política de transparência do uso do recurso público, era também uma estratégia de marketing social poderosa afinada com seu tempo.
    Escrevi diversas vezes que esse desconforto derivava de uma operação ideológica e, também, estética de eliminar das campanhas qualquer referência ao mundo real e, sobretudo, em revelar a violência do mundo real do trânsito. O amontoado de bobagens das diversas campanhas ao longo dos últimos 10 anos é produto de uma interpretação incapaz de lidar com a violência e, por conseguinte, de estabelecer um diálogo com a realidade vivida pelos cidadãos.
    Se quiséssemos realmente falar com os jovens, se tivéssemos o compromisso de mobilizar a atenção, a reflexão e, talvez, a atitude deles para o uso do cinto de segurança, por onde deveríamos começar? Expondo a verdade do que ocorre em uma colisão e as conseqüências da escolha de cada um. É o caminho que experimentaram duas campanhas nesse ano: a primeira produzida pelo Departamento Estadual de Trânsito do Espírito Santo (DETRAN/ES), a segunda pelo Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN).
    A campanha “Eu decidi pela vida“ do DETRAN/ES é uma produção sofisticada que “invade“ o interior do veículo em colisão para demonstrar os movimentos dos ocupantes sem cinto de segurança. Esse foco na sequência real das colisões permite uma visualização importantíssima dos mecanismos da lesões graves e fatais. Ao invés de anunciar que o cinto deve ser usado porque protege, oferece-se um fundamento objetivo para se decidir pelo uso. Essa é a filosofia dos excelentes comerciais ingleses, por exemplo. Na campanha capixaba esse conceito serve a dois vídeos tratando do uso do cinto no banco dianteiro e ao uso do cinto no banco traseiro.
    Na nova campanha “Segurança no banco de trás evita acidentes fatais“ do DENATRAN nada é demonstrado dentro dos veículos. O foco é a colisão, a força do impacto, o realismo da explosão de energia. A compreensão da violência é imediata e a narrativa acelerada explicita a mensagem de que a atitude de não usar o cinto pode causar a morte e graves ferimentos nos companheiros de viagem. É uma grande novidade de discurso e de proposta estética que não merecia estar, aliás, incluída no site da campanha “sou legal no trânsito“, de 2009 .
    Ambas campanhas partilham o cuidado extremo de não mostrar sangue nem ferimentos, nem choros ou gritos de dor. Seria necessário? Muito mais importante é o conceito comum de que os passageiros no carro são CO-responsáveis pela segurança – a viagem forma um contexto solidário, que dá pouca margem ao egoísmo usual de usar o cinto e ignorar o que fazem os outros ocupantes. O “cada um por si“, nesse caso, determina muitas vezes a morte ou a incapacitação física definitiva.
    Chegamos à Semana Nacional de Trânsito de 2010, assim, com duas campanhas inovadoras e complementares – dois passos adiante na direção de uma linguagem significativa que engaje o público em mudar a história em um clique.
    Teremos atingido os jovens? O alto grau de realismo, a precisão da narrativa e a velocidade das imagens conseguem mobilizar seu principal público? O que você pensa dessa nova abordagem da violência do trânsito?

[ ver vídeos ]

Eduardo Biavati
Sociólogo
http://biavati.wordpress.com

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