Simulador de direção não é um brinquedo

09/04/2014

por Roberta Torres*

À medida que as ferramentas de tecnologia vêm avançando, o debate sobre a importância do uso delas, incluindo o simulador de direção na formação dos condutores também é crescente. Hoje, existe uma convicção de que o uso do simulador irá melhorar a formação dos condutores e isso é perfeitamente plausível. Um dos principais responsáveis pelo aumento dos fatores de risco dos motoristas novatos se envolverem em um acidente segundo a psicóloga inglesa Lisa Dorn é a incapacidade de prever e gerir riscos. Os motoristas novatos tiveram menos contato com o trânsito e menos tempo de desenvolver e refinar seus modelos mentais. Eles são menos capazes de prever corretamente a evolução das prováveis situações de risco no trânsito.

No Brasil, muito tem se discutido a respeito do simulador de direção desde a publicação da resolução 444/2013 pelo Conselho Nacional de Trânsito –CONTRAN. Tenho lido e assistido dezenas de matérias, entrevistas, reuniões e audiências públicas sobre o assunto que aparentemente é bastante polêmico. Digo aparentemente polêmico por toda a cortina de fumaça que paira sobre o assunto obstruindo nossas visões para enxergarmos a realidade.

Após ouvir tantos especialistas se pronunciarem pulverizando dados estatísticos e estudos de outros países, resolvi dar a real atenção que o tema merece. Além de professora, sou estudante e apaixonada por pesquisa e um dos papéis do pesquisador é questionar. Desde o início, minhas perguntas sempre foram as mesmas. Perguntas sem respostas: o simulador de direção é capaz de contribuir para uma melhor formação do condutor no Brasil? O simulador reduzirá em 50% os índices de mortes e acidentes de trânsito no Brasil? O simulador é um instrumento de educação para o trânsito no Brasil? Que tipo de simulador é melhor para atender às necessidades dos candidatos à habilitação? Uma aula no simulador equivale à duas, três ou quatro aulas no ambiente real no Brasil? Quão realista o simulador precisa ser? Os candidatos à habilitação irão levar o simulador a sério? Quais as provas de que a aprendizagem adquirida no simulador será transferida para o mundo real? Porque 15 metros de espaço para o simulador e não 10, 11, 12 ou 50? Porque 5 aulas no simulador e não 1, 2, 5 ou 30?

Ao conseguir finalmente o estudo encomendado pelo Governo à Universidade Federal de Santa Catarina cujo título “Estudo do uso de simuladores e recursos de realidade virtual para formação de condutores em autoescolas”, que aqui chamarei de “nosso estudo”, acreditei que encontraria todas as respostas para as minhas perguntas ou pelo menos a maioria. Óbvio, não? Com tanta gente falando por aí que o simulador é a solução para os problemas do trânsito no Brasil, precisamos das respostas. Precisamos do embasamento teórico!

Ao ler e reler todo o estudo referência que temos em nível nacional a respeito do tema simulador de direção na formação de condutores, confesso fiquei decepcionada. O estudo mais parece uma colcha de retalhos onde o “copiar/colar” foi a premissa. Um assunto tão sério não poderia ter sido tratado com tanto descaso, principalmente por uma Universidade Federal. Um exemplo básico do que estou falando é que existem diversas afirmações, convicções e declarações sem citar as referências. Quem está no meio acadêmico deve concordar comigo que uma regra básica de um estudo acadêmico é citar as referências daquilo que escreve a não ser que tenha sido um conhecimento por você desenvolvido, algo novo, que ninguém tenha escrito. Neste caso, você apresenta os dados da sua pesquisa dos seus questionários, da amostra que usou, etc. Sem comprovação científica, o que você escreve passa a ser um mero “achismo”. Assim como este texto escrito por mim.

À medida que fui percebendo que minhas perguntas continuavam sem respostas com o “nosso estudo”, fui buscar informações nas referências não citadas no texto, mas listadas ao final do trabalho e em muitas outras referências. Na verdade, já perdi as contas de quantos artigos li a respeito. Até o momento, acima de 200. É assim que se constrói o conhecimento.Ainda há muito que escrever, mas vou me ater a somente minhas dúvidas iniciais, já que sei que diversas outras ainda virão.


O simulador de direção é capaz de contribuir para uma melhor formação do condutor no Brasil?No “nosso estudo” essa pergunta não teve resposta. Não houve um trabalho realizado com candidatos à habilitação que foram formados com o simulador e outros sem o simulador de direção, para posteriormente compararmos.  E além de não haver resposta, essa pergunta ainda gera outras perguntas: quais são os reais índices de aprovação nos exames de direção do país? Quantas aulas em média cada aluno faz antes de prestar o exame prático? Os candidatos que se formaram com o simulador fizeram menos aulas? Os candidatos que se formaram com o simulador foram aprovados mais rapidamente? Eles adquiriram habilidades mais rapidamente que o outro grupo?

O simulador reduzirá em 50% os índices de mortes e acidentes de trânsito no Brasil? Essa é a melhor de todas as perguntas, porque é tão mascarada a maneira como os dados estatísticos são simplesmente jogados para a população aqui no Brasil que dará muito mais trabalho do que um simples texto. Diariamente ouvimos dados estatísticos e vamos replicando por aí me lembrando uma velha brincadeira de infância: o telefone sem fio. Quantas pessoas falaram por aí que “Os EUA realizou uma pesquisa que comprova que o uso do simulador pode reduzir pela metade o número de acidentes, nos 24 primeiros meses após aprovação da habilitação”. Quantas vezes ouvimos? E onde estão esses dados? Quais foram os estudos? Quais as características dos simuladores? Quais as características dos alunos? Quais as características da legislação desses países?

Em primeiro lugar, existem centenas de estudos relacionados ao simulador de direção, muitos dos próprios fabricantes e mais especificamente de como o sistema deve ser. Já a literatura acadêmica oferece pouca orientação sobre o conteúdo ideal e estudos consistentes como o de Wade Allen. Em seu estudo “The Effect of Driving Simulator Fidelity on Training Effectiveness” no ano de 2007 foi onde encontrei os tais 50% tão divulgados e deturpados. Aliás, esse é o único momento em que o “nosso estudo” cita a redução de 50%. Mas vamos às condições.

Para começo de conversa o estudo de Allen foi realizado na Califórnia, um dos cinquenta Estados Americanos e também na Nova Escócia uma das províncias do Canadá. Durante 4 anos na Califórnia e 2 anos na Nova Escócia, eles estudaram o comportamento de condutores formados em três tipos diferentes de simuladores e compararam as taxas de envolvimento em acidentes com motoristas novatos que não foram formados com o simulador. Ao todo participaram do estudo 554 jovens.

Eles avaliaram três tipos de simuladores, porém com cenários e situações semelhantes. O primeiro simulador (NFOVD) é um simulador de mesa equivalente ao vídeo game que encontramos no mercado. Tem um estreito campo de visão, representa 50% do tamanho real da imagem com os controles de jogos e espelhos retrovisores laterais. Os alunos que faziam parte dessa amostra eram estudantes do ensino médio que fizeram os testes nas aulas de educação para o trânsito.

Já o segundo simulador (WFOVD) é um simulador que possui três monitores ampliando o campo de visão, porém representa 50% o tamanho real da imagem e espelhos retrovisores. É parecido com o “nosso simulador”, porém sem o cockpit. O próprio “nosso estudo” compara este modelo com o “nosso simulador”.

E por fim, o terceiro simulador (WFOVC) é um veículo com um amplo campo de visão, que apresenta 100% o tamanho da imagem com espelhos retrovisores. Esse simulador é um modelo considerado mais avançado pois tem um sistema chamado de “estado da arte” onde os movimentos que um carro faz são simulados com o uso da cinestesia e graus de liberdade (movimentos translacionais e rotacionais). Não com a perfeição de um ambiente real, mas uma versão muito mais avançada e próxima da realidade. Abaixo, os modelos dos simuladores testados por Allen.

 

Eles investigaram por mais de dois anos o tempo que cada grupo levou para obter a carteira de motoristas e o envolvimento deles em acidentes de trânsito. E ainda assim, consideraram essa média de tempo boa para os dados da literatura, mas problemática porque muitos dos jovens demoraram mais do que os outros para obterem a carteira.

De acordo com o estudo, o índices de acidentes no modelo 3 foram seguramente inferiores aos motoristas tradicionalmente treinados na Califórnia e no Canadá. A taxa de acidentes com os motoristas formados neste modelo foi menor que a metade do segundo modelo do simulador e 66% menor que a taxa dos motoristas formados tradicionalmente. Segue o gráfico.

Nosso estudo

Agora vamos aos estudos do Brasil. Foram construídos três protótipos. O primeiro protótipo denominado P1 é um simulador de mesa com jogos comerciais de corrida. Equivalente ao NFOVD. O segundo protótipo denominado P2 é um simulador intermediário que tem as funcionalidades mínimas de um simulador compacto. São três monitores. Uma versão melhor do WFOVD de Allen. E o terceiro protótipo, denominado P3 é um simulador mais avançado com três monitores, um sistema de cinestesia com dois graus de liberdade montado na base do motorista. O que permite um movimento parecido com o movimento de um automóvel. Não é equivalente ao WFOVC tanto pela estrutura, quanto pela projeção.

Preciso de um parágrafo só a título de comparação. Os simuladores usados em pesquisas e desenvolvimento mais avançados possuem plataformas de movimentação em 6 graus de liberdade, projetores externos de 360 graus, mesa de deslocamento para gerar acelerações lineares e cabine em formato interno real. Mas tudo bem, esses simuladores só são usados em casos de pesquisas pois são caríssimos. Mas há os simuladores de cabine que são um automóvel onde as imagens projetadas possuem um campo de visão entre 150 a 270 graus e as plataformas de movimentação de até 6 graus de liberdade. Esses também estão fora do nosso alcance. Mas existe também os simuladores compactos que em seu formato mais completo possuem assento com vibração e sistema de movimentação com 2 graus de liberdade. E depois dele um quarto modelo que são os simuladores de mesa.

Bem. Voltando ao “nosso estudo”. Ao chegar na parte chamada “Testes e ensaios preliminares”. Foram realizados testes com os próprios colaboradores e técnicos envolvidos no desenvolvimento dos equipamentos. Até aí tudo bem. Os testes eram para validar os simuladores e melhorar suas performances. Depois, o estudo passa para a experiência em uma autoescola em Minas Gerais. Segundo o “nosso estudo”:

Para efeito de pesquisa preparatória para a clínica de simuladores realizada em Florianópolis, foi realizada uma observação do uso de um simulador veicular em uma autoescola em Pouso Alegre.O modelo de simulador analisado é uma inovação em âmbito nacional creditada pelo proprietário da autoescola.O simulador de Pouso Alegre não conta com a cinestesia, mas apenas com a imersão física (cabine) e audiovisual.Os alunos recebiam com entusiasmo a aula no simulador e afirmaram que ele proporcionou uma aprendizagem muito útil para suas aulas práticas subsequentes...

Conclui-se que essa iniciativa possui grande mérito e constitui estudo de caso indispensável para a determinação de um sistema brasileiro de ensino em autoescolas mediado por simuladores de direção.


Conclui-se que: não conclui-se nada. Onde estão os resultados? Qual foi o tamanho da amostra? Quem foram os alunos? Quantos homens? Quantas mulheres? Quais elementos comprovam que eles saíram melhor formados?

Depois dessa experiência na autoescola em Minas Gerais, foi a vez da avaliação dos protótipos em uma autoescola em Santa Catarina. Os três modelos de simuladores foram submetidos a um grupo de teste durante dois meses e meio com um total de 19 alunos de uma autoescola em Santa Catarina. Sendo 6 alunos no P1 no período de 6 a 16 de julho (10 dias); 5 alunos no P2 no período de 2 a 13 de agosto (11 dias) e 8 alunos no P3 no período de 18 a 27 de agosto (9 dias). O ano não foi informado. Incluíram no estudo além dos alunos, instrutores de direção e visitantes especiais. Me pergunto até hoje o que seriam esses visitantes especiais.

Segundo o “nosso estudo” os alunos foram selecionados aleatoriamente e homogeneamente em sua distribuição de sexo, idade. Esqueceram de citar as condições também porque na amostra tinham pessoas habilitadas, não-habilitadas, com trauma, que já dirigiam sem estar no processo de habilitação. Enfim, realmente bastante “homogênea”.

Os testes foram realizados em um CFC em Florianópolis em uma sala de 14 metros quadrados preparada mediante critérios ergonômicos tais como conforto, iluminação, som, segurança, etc. Aqui, caberia uma nova pergunta: porque 14 metros e não 15? Ou 8? Ou 10? Não há respostas.

Cada testador participou de um programa de cinco sessões. Cada sessão contando com trinta minutos de duração com conteúdos definidos. Aqui cabe outra pergunta: porque 5 sessões e não 1, 2 ou 10? Não há respostas.


A super amostra de 19 alunos avaliados em média em 10 dias foram entrevistados, observados, registrados com fotos e vídeos e não divulgados. Os resultados? Onde estão os resultados? O que vocês descobriram?

Achei!! Só que não. No item 6 com o título “Resultados dos experimentos”. Nesta sessão, segundo o “nosso estudo” foram descritos os resultados gerais dos experimentos, começando com informações sobre os testadores, e partindo para uma tabela comparativa dos três modelos de simuladores.

Parece piada, mas não é, infelizmente. No “nosso estudo” colocaram neste capítulo as fotos dos participantes com as seguintes legendas:


A, 18 anos, nunca havia dirigido.
V, 19 anos, dirigia há 4 sem habilitaçãoS, 27 anos, dirige desde os 16 anos, mas sem habilitação
W. 56 anos, ex-motorista de caminhão, há 5 anos sem habilitação.
V. 22 anos, nunca havia dirigido. Dizia-se “muito nervosa” com a ideia.
C. 30 anos. Dirige há 10. Havia perdido sua habilitação por pontos.

E por aí vai. Vejam como a amostra é homogênea! Vejam como o estudo teve um objetivo claro de avaliação! E a tabela comparativa dos resultados? Falam bem superficialmente sobre as especificações novamente dos simuladores. Que o P1 tem baixa imersão que o ganho de confiança foi bom nos três protótipos que os três apresentaram aprendizagem intelectual, que o P1 é problemático em aprendizagem sensorial e aprendizagem de habilidades motoras. Ah! E falam também que a imersão na experiência de simulação foi aumentada com a cinestesia, mas em pouca quantidade e que não é recomendável a cinestesia como recursos essenciais em simuladores. Como assim??Porque não? A literatura demonstra que entre 5% a 10% da população sofre com a Simulation Sickness que é a doença do simulador que justamente é reduzida pelo efeito cinestésico. Como é dispensável?

Vamos comparar?

Simulador da Califórnia e Canadá
Simulador do Brasil

Quantidade de alunos
554
Quantidade de alunos
19
Tempo de estudo
4 e 2 anos
Tempo de estudo
2 meses e meio
Simulador com cinestesia
Redução de mais de 50%

Simulador com cinestesia
Não existem dados
Simulador sem cinestesia
Redução de aprox.. 27%

Simulador sem cinestesia
Não existem dados
Amostra
Alunos candidatos à habilitação
Amostra
Alunos candidatos à habilitação, motoristas habilitados, motoristas inabilitados, etc.


E aí, querem comparar os estudos daqui com os estudos dos “EUA”? Faça-me um favor! Vamos parar de brincar de fazer pesquisa. Vamos parar de pensar que brasileiro é burro e aceita qualquer dado estatístico facilmente. Vamos parar de pensar que dono de CFC é analfabeto e idiota. Vamos assumir nossa responsabilidade por um trânsito mais seguro com medidas e políticas públicas sérias. Vamos investir em educação! E principalmente, vamos parar de multiplicar dados estatísticos infinitamente diferentes da nossa realidade.

Provem que o simulador é eficiente e eficaz. Peguem uma amostra significativa para o tamanho do país, analisem o comportamento antes e depois. Avaliem os condutores formados com o simulador e os formados sem o simulador. Acompanhem eles após o período da permissão e um ano depois. Tragam os dados e resultados. Se conseguirem provar que o simulador reduziu os índices de acidentes ou se fez com que os alunos se formassem melhor, eu serei a primeira a levantar a bandeira do simulador. Serei ativista dos movimentos “pela vida com o simulador” "eu amo o simulador" "Sou 100% simulador". Sem isso, não há como dialogar, Capisce?

Quanto às minhas outras perguntas sem respostas, eu preciso responder?

por Roberta Torres*
palestrante e consultora de trânsito.
http://www.robertatorresl.com/

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